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Análises e Indicadores do Agronegócio

Primeiras Ações do Observatório de Segurança Alimentar e Nutricional da Baixada Santista, Estado de São Paulo

Soraia de Fátima Ramos, Vanuzia Teixeira de Souza Batista, Fabrício Gomes dos Santos, Juanita Trigo Nasser, Ubiraci Loureiro Sarzedas, Paula Andrea Martins

Publicado em

No dia 22 de fevereiro de 2025 aconteceu no Sesc Bertioga, no município de Bertioga em São Paulo, a segunda Assembleia do Observatório de Segurança Alimentar e Nutricional da Baixada Santista (ObSAN-BS).

O encontro reuniu membros da Secretaria Executiva do ObSAN-BS1, o Instituto de Economia Agrícola (IEA), a UNIFESP e convidados, com o objetivo de debater o cenário atual e as perspectivas municipais para 2025 (Figura 1).

De modo a contribuir com a construção de aprendizados, trocas de saberes e ampliar o diálogo com a sociedade nos territórios sobre a questão da insegurança alimentar, este artigo tem por objetivo evidenciar o protagonismo da sociedade civil organizada e em parceria com servidores públicos ao realizar conjuntamente ações destinadas a promoção do direito humano a alimentação adequada (DHAA).

Inicialmente, o texto evidencia o histórico e os objetivos da criação do ObSAN-BS. Em seguida apresenta, brevemente, alguns aspectos socioeconômicos dos municípios litorâneos e, então, discorre a respeito das primeiras ações de investigação do ObSAN-BS com

a construção da pesquisa inédita sobre o consumo alimentar na Baixada Santista.

Ao final, traz os principais desafios e perspectivas em 2025, os quais deverão mobilizar a equipe da Secretaria Executiva e os parceiros do ObSAN-BS em favor da construção de estratégias para garantir o direito à alimentação saudável nos territórios.

O OBSERVATÓRIO DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL DA BAIXADA SANTISTA

O Observatório de Segurança Alimentar e Nutricional da Baixada Santista (ObSAN-BS) começou a ser idealizado em 2023, como forma de atender às propostas de encaminhamentos originados com os debates da Conferência Regional de Segurança Alimentar e Nutricional da Baixada Santista realizada em julho de 20232.

A partir de abril de 2024, a formação de uma rede de pessoas, reunindo representantes do poder público e da sociedade civil organizada, comprometidas com a questão da segurança alimentar e nutricional (SAN), assumiu as atividades e tarefas para que, em 19 de outubro de 2024, o ObSAN-BS fosse oficialmente lançado na cidade de Santos (Figuras, 2, 3 e 4).

No estado de São Paulo, o ObSAN-BS é a primeira iniciativa de caráter regional a acompanhar a temática da segurança alimentar e nutricional. O ObSAN-BS tem como perspectiva os nove municípios da Região Metropolitana da Baixada Santista (RMBS): Bertioga, Cubatão, Guarujá, Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande, Santos e São Vicente.



A proposta do ObSAN-BS é ser um canal de “articulação entre as entidades regionais que permeiam a SAN e desenvolvem atividades voltadas à garantia de acesso a alimentos seguros, com promoção de saúde e qualidade de vida”3. O intuito é fazer valer o direito humano à alimentação adequada, acompanhando e monitorando as políticas públicas de SAN nos municípios como a realização e os investimentos ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)4.

O ObSAN-BS tem como valores: o combate à fome; a valorização e a construção de políticas públicas de alimentação e nutrição; a articulação com o poder público a fim de promover atividades que fomentem a segurança alimentar e nutricional; e a manutenção de iniciativas governamentais em defesa do DHANA, como os restaurantes populares, as cozinhas comunitárias, e outras ações de economia solidária5.

O ObSAN-BS tem como meta aproximar pesquisadores, docentes, discentes e profissionais autônomos para desenvolver estudos sobre a segurança ou insegurança alimentar e nutricional, bem como conhecer a realidade das vulnerabilidades na Região Metropolitana da Baixada Santista. A ideia é traçar estratégias de combate à fome e prevenção de doenças crônicas não transmissíveis à população da região.

Ao propor articular os nove municípios, há o intuito de promover as construções coletivas em defesa da SAN nos territórios, e dar visibilidade à agricultura familiar, povos e comunidades tradicionais proporcionando o acesso aos alimentos seguros e saudáveis. 

O ObSAN-BS tem por meta, também, promover eventos regionais sobre SAN, a fim de ampliar os espaços de diálogo com a inclusão de todas as camadas sociais e, deste modo, fortalecer os trabalhos em desenvolvimento e a serem desenvolvidos na RMBS6.

POPULAÇÃO E ASPECTOS SOCIOECONÔMICOS DA BAIXADA SANTISTA

A Baixada Santista reúne nove municípios que compõem a Região Metropolitana da Baixada Santista no estado de São Paulo (Figura 5).

Juntas, a população dos municípios de Bertioga, Cubatão, Guarujá, Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande, Santos e São Vicente ultrapassam 1 milhão e oitocentas mil pessoas (Tabela 1).

Entre os desafios que demandam atenção do poder público está o fato de que mais de meio milhão de pessoas da Baixada Santista (32% da população) estão inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome e, portanto, em condição de fragilidade social7.

Os quatro municípios com maior número de habitantes (acima de 200 mil pessoas) são por ordem: Santos, Praia Grande, São Vicente e Guarujá. Neste sentido, a análise dos números absolutos de pessoas inscritas no CadÚnico revela que o município de São Vicente ocupa o primeiro lugar com o maior número de pessoas em situação de vulnerabilidade social da RMBS, seguidos por Guarujá e Praia Grande (Tabela 1).

Em Peruíbe (54,5%), Itanhaém (54,3%), Bertioga (52,1%) e Mongaguá (42,4%), a percentagem da população inscrita no CadÚnico em relação ao total da população dos respectivos municípios está acima da média estadual, que é de 31,7%. Em contrapartida, em Santos e Praia Grande há menor proporção de inscritos no CadÚnico em relação ao total de pessoas dos seus municípios (Tabela 1).

Em relação aos aspectos socioeconômicos da Baixada Santista, destacam-se as informações sobre a residência domiciliar em favelas8. Os municípios de Guarujá, Cubatão, São Vicente e Bertioga com, respectivamente, 36,9%, 32,7%, 26,0% e 25,6%, apresentam uma maior proporção de pessoas residindo em favelas e, portanto, em áreas de maior vulnerabilidade social, econômica e ambiental (Figura 4).

A respeito do acesso às condições de saneamento básico, três variáveis indicam as características municipais da Baixada Santista: rede de esgoto, água e coleta de lixo9. Conforme nota-se na figura 5, os serviços de abastecimento de água e de coleta de lixo atendem acima de 90% da população dos municípios. Entretanto, um dos desafios da gestão municipal é o serviço de rede de esgoto que somente em Praia Grande, Santos e São Vicente atendem acima de 90% da população. Em Itanhaém, o caso mais crítico, somente 63,1% da população tem o domicílio conectado à rede de esgoto (Figura 5).

O CONSUMO ALIMENTAR NA BAIXADA SANTISTA

Entre as primeiras ações de maior magnitude promovidas pela rede do ObSAN-BS está a elaboração da primeira Pesquisa Exploratória sobre Consumo Alimentar da Baixada Santista. O objetivo desse trabalho inédito está em iniciar as investigações de campo para realizar estudos mais avançados e precisos sobre os hábitos alimentares com enfoque na região. Além disso, tem por propósito traçar metas e orientações a respeito da melhoria e aprimoramento das políticas públicas locais intersetoriais de SAN.

O formulário da pesquisa exploratória contou com 38 perguntas e esteve disponível à população da Baixada Santista para preenchimento online, entre outubro e dezembro de 2024. A figura 6 destaca o folder criado para a divulgação da pesquisa nas redes sociais.

Como retorno dos trabalhos de divulgação do questionário realizado pelos membros da Secretaria Executiva do ObSAN-BS, houve um alcance de 558 respondentes. Os resultados obtidos ajudam a constatar os problemas a serem priorizados e, até mesmo, a ausência de informações sobre a temática de SAN.

Após a tabulação e análise das respostas, serão produzidos documentos com a intenção de subsidiar as ações dos gestores públicos e, em especial, o desenvolvimento do Plano Regional de fomento às políticas de SAN na Região da Baixada Santista.

Após a 2ª Assembleia Geral Ordinária do OBSAN-BS e considerando os dados obtidos na Pesquisa Exploratória sobre Consumo Alimentar na RMBS, bem como a missão e os valores do observatório, destacam-se os seguintes desafios e perspectivas:

Desafios

· Incentivar políticas públicas, que venham a contribuir para novas ações de combate à fome nas nove cidades da Região Metropolitana da Baixada Santista;

· Auxiliar os municípios na aquisição de novos equipamentos de SAN, como banco de alimentos, restaurantes comunitários, cozinhas solidárias, entre outros;

· Monitorar programas governamentais já existentes, relacionados à SAN, como o acompanhamento da execução de compras institucionais de alimentos (PAA, PNAE e PPAIS) nos nove municípios, principalmente no que se refere à aquisição mínima de 30% de gêneros alimentícios produzidos pela agricultura familiar;

· Elaborar minuta de lei para orientar os municípios sobre a implantação do Programa de Aquisição de Alimentos municipal (PAA municipal);

· Criar minuta de lei sobre o Serviço de Inspeção Municipal (SIM) para fortalecer a implementação nas cidades e que possam, também, atuar de forma consorciada;

· Solicitar aos órgãos municipais e Secretaria de Agricultura e Abastecimento do estado de São Paulo que realize o Levantamento Censitário das Unidades de Produção Agropecuária do Estado de São Paulo (LUPA); e

· Desenvolver outras pesquisas relacionadas à SAN, a saber:

o   Análise do estado nutricional de crianças das cidades de Santos e São Vicente;

o   Elaborar projetos para Editais de fomento como o Programa de Pesquisa em Políticas Públicas, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Perspectivas

· Dar visibilidade ao trabalho realizado nos primeiros meses de vida do observatório regional;

· Sensibilizar os governantes da região em prol do fomento de atividades estratégicas focadas no desenvolvimento e preservação da soberania e segurança alimentar e nutricional (SSAN);

· Realizar ações junto ao Conselho de Desenvolvimento da Baixada Santista (CONDESB);

· Resgatar as propostas das Conferências Municipais e Regional de Segurança Alimentar e Nutricional de 2023, no intuito de mobilizar os observadores em atividades resolutivas das conferências;

· Mapear a agricultura familiar da RMBS;

· Mapear os locais aptos para a comercialização de produtos in natura, minimamente processados e orgânicos, considerando o Cadastro do Agricultor Familiar (CAF) e as orientações para a alimentação saudável do Guia Alimentar para a População Brasileira;

· Orientar os municípios aderidos ao Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN) para fazerem a adesão ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) junto ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS);

· Realizar o II Simpósio de Segurança Alimentar e Nutricional da Baixada Santista – II SimpoSAN, em 18 de outubro de 2025; e

· Usar as mídias e redes sociais, como Facebook e Instagram, além de outras como o YouTube, para a estratégia de comunicação voltada à realização de podcast que discuta todas as temáticas relevantes sobre soberania e segurança alimentar e nutricional.

O controle social e a participação das organizações da sociedade civil em fóruns consultivos e deliberativos contribuem para o maior êxito de proposições e monitoramento de políticas públicas. O coletivo ObSAN-BS, por seu caráter regional, interdisciplinar e interinstitucional, tem o potencial de impulsionar, por exemplo, o trabalho dos conselheiros nas várias instâncias do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional, e mobilizar os diversos sujeitos sociais nos territórios. Ao assumir a defesa de práticas de produção e consumo alimentar fundamentada em uma perspectiva da economia solidária, justiça social e ambiental, carrega as sementes para a transformação social.

O controle social e a participação das organizações da sociedade civil em fóruns consultivos e deliberativos contribuem para o maior êxito de proposições e monitoramento de políticas públicas. O coletivo ObSAN-BS, por seu caráter regional, interdisciplinar e interinstitucional, tem o potencial de impulsionar, por exemplo, o trabalho dos conselheiros nas várias instâncias do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional, e mobilizar os diversos sujeitos sociais nos territórios. Ao assumir a defesa de práticas de produção e consumo alimentar fundamentada em uma perspectiva da economia solidária, justiça social e ambiental, carrega as sementes para a transformação social.

1Atualmente, a Secretaria Executiva do ObSAN-BS é composta por Fabrício Gomes dos Santos, Hemerson Fernandes Calgaro, Juanita Trigo Nasser, Juliana Aparecida de Jesus Dias, Paula Andrea Martins, Renato Prado, Rosana Andrade Leite, Ubiraci Loureiro Sarzedas e Vanuzia Teixeira de Souza.

2OBSERVATÓRIO DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL DA BAIXADA SANTISTA. Sobre o ObSAN-BS. Santos: ObSAN-BS, 2024. Disponível em: https://www.obsan-bs.com/about-4. Acesso em: 18 mar. 2025.

3Op. cit. nota 2.

4Op. cit. nota 2.

5Op. cit. nota 2.

6Op. cit. nota 2.

7BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Secretaria de Avaliação, Gestão da Informação e Cadastro Único. Cadastro Único. Brasília: SAGICAD, 2024. Disponível em: https://aplicacoes.cidadania.gov.br/vis/data3/data-explorer.php Acesso em: 13 de fev. 2025.

8IBGE. Censo demográfico do Brasil 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2022. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/panorama. Acesso em: 13 de fev. 2025.

9Op. cit. nota 8.

Palavras-chave: segurança alimentar e nutricional, observatório, organização social

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COMO CITAR ESTE ARTIGO

RAMOS. S. de F. et al. N. Primeiras Ações do Observatório de Segurança Alimentar e Nutricional da Baixada Santista, Estado de São Paulo. Análises e Indicadores do Agronegócio, São Paulo, v. 20, n. 3, p. 1-10, mar. 2025. Disponível em: colocar o link do artigo. Acesso em: dd mmm. aaaa.

Como citar

SORAIA DE FÁTIMA RAMOS; VANUZIA TEIXEIRA DE SOUZA BATISTA; FABRÍCIO GOMES DOS SANTOS; JUANITA TRIGO NASSER; UBIRACI LOUREIRO SARZEDAS; PAULA ANDREA MARTINS. Primeiras Ações do Observatório de Segurança Alimentar e Nutricional da Baixada Santista, Estado de São Paulo. Análises e Indicadores do Agronegócio, 2025. Disponível em: https://iea.agricultura.sp.gov.br/out/LerRea.php?codTexto=16259. Acesso em: 22/10/2026.