A partir dos dados do levantamento de
Preços Médios Mensais no Varejo, realizado pela equipe do Instituto de Economia
Agrícola (IEA)1, anualmente se realiza análise conjuntural de preços
ao consumidor no mercado varejista na cidade de São Paulo, utilizando
indicadores próprios para mensurar o impacto do custo dos alimentos adquiridos
para consumo nas residências das famílias paulistanas. Em 2024, a inflação
acumulada da cesta de mercado de produtos alimentares foi calculada em 10,11%2,
o que representou mais do que o dobro da inflação oficial do país para o ano
(contabilizada em 4,83% pelo Banco Central do Brasil (Bacen)3, bem
como do IPCA no estado, calculada em 5,01% pelo IBGE4. Ela foi
justificada por uma combinação de eventos climáticos severos (chuvas no Rio
Grande do Sul e estiagem e elevadas temperaturas em outras regiões do país),
ocasionando quebras de safra. Esses fatores, juntamente com a desvalorização do
real frente ao dólar (de 27% na cotação da moeda estadunidense), fizeram com
que a compra de alimentos pelas famílias paulistanos para consumo doméstico
exigisse uma parcela maior do orçamento em 2024 do que no ano anterior. Neste artigo,
analisa-se o comportamento de preços de um conjunto de produtos da cesta de
mercado no ano de 2025.
O levantamento fundamenta-se em uma
amostra composta por 360 unidades varejistas. A estratificação da amostra
abrange 169 supermercados, 79 estabelecimentos do tipo quitanda/sacolão, 69
feiras-livres, 40 açougues e 13 padarias. A construção do índice baseia-se nos
dispêndios com alimentação domiciliar de famílias paulistanas de perfil
socioeconômico médio, conforme os parâmetros da Pesquisa de Orçamentos
Familiares (POF/Fipe). Em fevereiro de 2010, as séries de dados históricos
foram submetidas a um processo de atualização com efeitos retroativos a janeiro
de 20075. Tal revisão implicou na reestruturação da cesta de
produtos: 81 itens foram mantidos, 16 foram excluídos e 51 novos produtos foram
incorporados. O recálculo dos indicadores observou as ponderações derivadas da
POF/Fipe referente ao biênio 1998/19996 e, atualmente, a base de
preços encontra-se atualizada conforme a POF/Fipe 2011/2013. Para garantir a
representatividade dos dados, os valores são consistidos e ponderados segundo
características dos produtos e critérios de aquisição. Os resultados são
estruturados em seis grupos de produtos: Carnes e derivados, Leite e derivados,
Ovos, Frutas, Hortaliças e Produtos Básicos, sendo calculados três indicadores
fundamentais: o IPCMA (Índice de Preços da Cesta de Mercado de Produtos de
Origem Animal), o IPCMV (Índice de Preços da Cesta de Mercado de Produtos de
Origem Vegetal) e o IPCMT (Índice de Preços da Cesta de Mercado Total). A
variação mensal, bem como o índice acumulado IPCMA, IPCMV e IPCMT são
apresentados na tabela 1.
Assim como na
análise dos índices mensais em 2025, observa-se que o IPCMV apresentou a maior
e a menor variação percentual de preços no período (o IPCMV teve desvio padrão
1,50 frente 1,22 do IPCMA e 1,10 do IPCMT), indicando maior variabilidade de
preços neste conjunto de produtos. Em março, os preços atingiram alta de 4,95%
e, em julho, registraram redução de 2,64%. Ainda sobre este índice, houve queda
de preços em cinco meses, enquanto no IPCMA, verificou-se a ocorrência em
apenas dois meses. Os produtos de origem animal contabilizaram alta nos cinco
primeiros meses do ano consecutivamente, fechando o ano com alta acumulada de
5,79%, índice superior aos produtos vegetais que fecharam o ano com alta de
4,01%. O índice de inflação da cesta de mercado foi de 4,90%, ligeiramente
superior ao IPCA de 4,26% registrado em dezembro de 20257.
Considerando-se
ainda esse conjunto de dados, 2025 foi marcado por dois comportamentos
distintos no acumulado do primeiro e no segundo semestre. Conforme ilustrado na
figura 1, o primeiro trimestre apresentou alta nos índices IPCMA e IPCMV com
salto significativo no mês de março, especialmente no IPCMV. Ao aproximar-se da
transição do outono para o inverno, ou seja, nos meses de junho e julho,
observa-se que a queda nos preços típica de índices ligados a alimentos de
origem vegetal. A partir do mês de julho, ocorreu nova retomada da alta de
preços na maioria dos meses subsequentes até dezembro, consolidando a tendência
de alta.
O IPCMA
apresentou uma aceleração nos meses finais do ano e encerrou em dezembro de
2025 com valor superior ao IPCMV. Os produtos de origem animal foram os
principais vetores da inflação, uma vez que apresentaram recuperação de preços
mais acentuada do que o IPCMV, no segundo semestre. Os índices mostraram um
cenário de inflação persistente ao longo de 2025, indicando aumento no custo de
vida em reflexo dos preços dos alimentos na cidade de São Paulo.
A figura 2
apresenta a variação anual nos preços dos subgrupos que englobam os produtos da
cesta de mercado, nos anos de 2024 e 2025.
O subgrupo de Hortaliças apresentou as maiores oscilações sazonais; a
batata e o tomate tiveram picos acentuados no meio do ano, seguidos de leves
correções, mas mantendo-se elevados. Já o das Frutas, com resultado de variação
de 8,31% em 2025, demonstra que, embora o ritmo de elevação tenha arrefecido em
comparação ao choque de 2024, não registrou deflação nem retornou aos preços
anteriores monitorados ao longo do ano8.
No subgrupo de
Leite e derivados, todos os produtos apresentaram alta; o litro de leite longa
vida apresentou alta de 1,88% no ano, abaixo da inflação do período, ou seja,
reduzindo o valor médio da cesta de mercado.
No subgrupo dos Produtos Básicos, itens como arroz e macarrão tiveram
variações menores e fecharam 2025 mais baratos. O feijão especificamente teve
uma leve queda em setembro antes de voltar a subir, refletindo uma
sensibilidade maior a períodos de safra. O preço do arroz apresentou queda de
22,16% no ano, numa recuperação do patamar de preços após a elevada subida em
2024, decorrente das chuvas no Rio Grande do Sul que comprometeram a colheita e
parte dos estoques armazenados9. O café solúvel, com alta de 46,96%,
foi o item com a maior alta anual em toda cesta de mercado. Esse fato decorre
da continuidade do cenário combinado de queda nas safras consecutivas
brasileiras10 e vietnamitas associadas a baixas acentuadas nos
estoques internacionais.
O subgrupo
segmento de Ovos registrou alta de 8,16%, revertendo a trajetória de queda
observada em 2024. Tal comportamento refletiu tanto a demanda doméstica para
proteínas de menor custo relativo quanto a pressão inflacionária decorrente das
expectativas de ampliação das exportações de ovos de mesa e material genético11.
A análise
comparativa entre os preços da cesta de mercado entre 2024 e 2025 revela
mudança nos determinantes da inflação de alimentos no varejo da cidade de São
Paulo. Se no ano anterior a volatilidade dos preços foi entendida
principalmente no contexto de distúrbios climáticos e ciclos de produtividade,
em 2025 consolidou-se a introdução dos efeitos de elementos da matriz
geopolítica (guerras e tarifas), ainda que os reflexos das mudanças climáticas
persistam.
Embora o ponto
de inflexão sazonal característico do segundo semestre permaneça, o grupo
Carnes registrou alta anual de 6,48% em 2025, desacelerando em relação ao
avanço de 13,42% observado em 2024 (Figura 2). Essa desaceleração coincide com
a imposição de sobretaxas pelos Estados Unidos12, evento geopolítico
que deflagrou restrições parciais às exportações e contribuiu para um
incremento temporário na oferta do produto no mercado doméstico. O cenário
amorteceu a valorização de alguns cortes no varejo paulistano, exemplificado
pela variação modesta no preço da picanha (1,30%). Contudo, o desempenho
econômico do setor no estado não refletiu comprometimento nos resultados, uma
vez que o valor da produção agropecuária (VPA) da carne bovina expandiu-se
17,97% no período13.
O subgrupo de
Carnes e Derivados apresentou comportamento de alta consistente; após um
período de estabilidade no início do ano, os preços subiram no último
trimestre. O acém, por exemplo, apresentou alta de 6,80% em dezembro de 2025,
próximo à alta de 6,45% do conjunto de produtos do subgrupo, resultado acima da
inflação no período. Essa tendência de aceleração dos preços do segundo
semestre não foi apenas uma oscilação comum, mas o início de um ciclo de alta
que, para a maioria dos cortes, não retornou ao patamar anterior até o final do
ano, desempenho esperado pelos analistas devido ao comportamento conhecido dos
preços com o ciclo da pecuária bovina, principalmente14.
A figura 3
ilustra a trajetória dos preços médios por quilograma dos cortes bovinos
(composto por 13 itens), suínos (2 itens) e do frango inteiro.
No primeiro semestre, a carne bovina exibiu relativa estabilidade, com flutuações limitadas a 2%, e o período se encerrou com uma valorização de 3,55% em dezembro frente ao mês anterior. A carne suína apresentou comportamento análogo, registrando alta de 2,84% no ano. Já o frango inteiro, apesar de registrar a maior amplitude de variação no período, configurou-se como o item de maior acessibilidade ao consumidor, encerrando o ano a R$ 11,24/kg, o que representou um decréscimo de 9,21% em relação ao pico verificado em maio (R$ 12,38/kg). motivado pela redução de preços dos grãos, principalmente soja, cujo farelo é a base da ração animal na avicultura15.
Em síntese, em
2025 verificou-se uma desaceleração da inflação dos produtos alimentícios na
cidade de São Paulo em comparação com o ano anterior. A inflação da cesta de
mercado em São Paulo em 2025 reflete o impacto de fatores climáticos,
conjunturais e geopolíticos sobre os preços: enquanto o café sofre o com
gargalos produtivos e climáticos, o setor de carnes mostra como barreiras
tarifárias e alterações no fluxo comercial alteram o repasse ao varejo local.
Isso indica que o custo dos alimentos não depende apenas da safra nacional, o
que exige estudos aprofundados para mensurar os efeitos das tensões globais
sobre os preços ao consumidor.
1Os autores agradecem à equipe de trabalho do Sistema
Varejo, servidores Andreia Brazão, Cristina Almeida Paes, Michelle Quirino
Bettencourt e Valdecir Garcia Luchiari, que realizam o levantamento dos dados,
e Thiago Brena e ao apoio da Prodesp. O Sistema Varejo conta com apoio
institucional via Grupo de Trabalho de Acesso às Informações Estatísticas dos
Agronegócios. Agradecem ainda aos comentários e sugestões do pesquisador
científico Celso Luis Rodrigues Vegro.
2MARTINS, Vagner Azarias. Evolução dos Preços da Cesta de
Mercado de Alimentos no Município de São Paulo em 2024. Análises e
Indicadores do Agronegócio, São Paulo, v. 20, n. 1, p. 1-6, jan. 2025.
Disponível em: https://iea.agricultura.sp.gov.br/out/TerTexto.php?codTexto=16254. Acesso em: 29 dez. 2025.
3BANCO CENTRAL DO BRASIL. Histórico: meta de
inflação vs. Inflação efetiva. Brasília: BACEN, 2026. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/historicometas. Acesso em: 25 set. 2026.
4BELLO, Luiz. IPCA em dezembro vai a 0,52% e acumula 4,83%
em 2024. Agência de Notícias IBGE, Brasília, 10 jan. 2025. Disponível
em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/42416-ipca-em-dezembro-vai-a-0-52-e-acumula-4-83-em-2024. Acesso em: 1 out. 2025.
5MARTINS, Vagner Azarias; BUENO, Carlos Roberto Ferreira;
SACHS, Raquel Castellucci Caruso. Proposta de reestruturação do sistema
amostral de coleta de dados no mercado varejista de alimentos na cidade de São
Paulo: uma aplicação de amostragem estratificada probabilística em dois
estágios. Informações Econômicas, São Paulo, v. 39, n. 8, p. 49-65,
2009. Disponível em: https://iea.agricultura.sp.gov.br/out/LerTexto.php?codTexto=11722. Acesso em: 29 dez. 2025.
6INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA. Preços Médios Sistemas
Sobre. São Paulo, 2010. Disponível em: http://ciagri.iea.sp.gov.br/nia1/Precos_Medios_Sistemas_Sobre.aspx?cod_sis=4. Acesso em: 29 dez. 2025.
7BRASIL. Presidência da República. Brasil registra em
2025 o menor índice de inflação desde 2018 e o quinto menor dos últimos 31 anos.
Brasília, DF, 9 jan. 2026. Disponível em:
https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2026/01/brasil-registra-em-2025-o-menor-indice-de-inflacao-desde-2018-e-o-quinto-menor-dos-ultimos-31-anos.
Acesso em: 27 mar. 2026.
8PACTO CONTRA A FOME. Inflação dos alimentos – outubro
de 2025. São Paulo: Pacto Contra a Fome, 9 out. 2025. Disponível em:
https://ifz.org.br/inflacao-dos-alimentos-outubro-de-2025/. Acesso em: 29 dez.
2025.
9COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO. AgroConab,
Brasília, v. 4, n. 5, p. 1-41, maio 2024. Disponível em: https://www.gov.br/conab/pt-br/atuacao/informacoes-agropecuarias/analises-do-mercado-agropecuario-e-extrativista/analises-de-mercado/analise-mensal/agroconab/agroconab-mensal-2024/agroconab-mensal-maio-2024.pdf. Acesso em: 25 set. 2026.
10VEGRO, Celso Luis Rodrigues et al. Previsões e Estimativas das Safras Agrícolas
do Estado de São Paulo, Intenção de Plantio do Ano Agrícola 2025/26 e
Levantamento Final Ano Agrícola 2024/25, Setembro de 2025. Análises e
Indicadores do Agronegócio, São Paulo, v. 20, n. 12, p. 1-11, dez. 2025.
Disponível em: https://iea.agricultura.sp.gov.br/out/TerTexto.php?codTexto=16314. Acesso em: 29 dez. 2025.
11SOARES, Kamilla Ribas; XIMENES, Luciano Feijão. Ovos. Caderno
Setorial ETENE, Fortaleza, ano 9, n. 375, p. 1-19, fev. 2025. Disponível
em: https://www.bnb.gov.br/revista/cse/article/view/3156. Acesso em: dez. 2025.
12No momento da elaboração desta análise, a taxação dos
Estados Unidos sobre produtos exportados pelo agronegócio brasileiro poderia
chegar a até 50%, com isenções parciais para produtos como café em grão, carnes
e frutas frescas.
13VEGRO, Celso Luís Rodrigues et al. Valor da
Produção Agropecuária Paulista 2025. Análises e Indicadores do Agronegócio,
São Paulo, v. 21, n. 5, p. 1-8, maio. 2026. Disponível em:https://iea.agricultura.sp.gov.br/out/TerTexto.php?codTexto=16329. Acesso em: 28 ago. 2026.
14SERIGATI, Felippe; POSSAMAI, Roberta; DIZ, André. O
churrasco deverá ficar mais caro em 2025. Agroanalysis, São Paulo, v.
44, n. 11, p. 13-15, nov. 2024. Disponível em: https://agro.fgv.br/sites/default/files/2024-11/2024_11.pdf. Acesso em: 29 dez. 2025.
15No estado de São Paulo, o preço médio recebido pelo
produtor pela soja recuou 3,32% em 2025, acompanhando a baixa na Bolsa de
Chicago, cujo preço médio negociado apresentou queda de 5,7% em relação ao ano
anterior. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Escola Superior de Agricultura Luiz de
Queiroz. Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada. Soja. Agromensal,
Piracicaba, p. 1-2, dez. 2025. Disponível em: https://cepea.org.br/upload/revista/pdf/0898361001767805485.pdf. Acesso em: 25 set. 2026.
Palavras-chave: varejo alimentar, geopolítica, inflação de custos, cesta de mercado, São
Paulo.
Liberado para publicação em: 01/10/2026
COMO
CITAR ESTE ARTIGO
PINTO, T. S. N.; MARTINS, V. A. Evolução dos Preços
da Cesta de Mercado de Alimentos no Município de São Paulo em 2025. Análises
e Indicadores do Agronegócio, São Paulo, v. 21, n. 10, out. 2026, p. 1-8. Disponível
em: colocar o link
do artigo. Acesso em: dd mmm. aaaa.

