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Primeiras Ações do Observatório de Segurança Alimentar e Nutricional da Baixada Santista, Estado de São Paulo
No dia 22 de fevereiro de 2025
aconteceu no Sesc Bertioga, no município de Bertioga em São Paulo, a segunda
Assembleia do Observatório de Segurança Alimentar e Nutricional da Baixada
Santista (ObSAN-BS). O encontro reuniu membros da
Secretaria Executiva do ObSAN-BS1, o Instituto de Economia Agrícola
(IEA), a UNIFESP e convidados, com o objetivo de debater o cenário atual e as
perspectivas municipais para 2025 (Figura 1). De modo a
contribuir com a construção de aprendizados, trocas de saberes e ampliar o
diálogo com a sociedade nos territórios sobre a questão da insegurança
alimentar, este artigo tem por objetivo evidenciar o protagonismo da sociedade
civil organizada e em parceria com servidores públicos ao realizar
conjuntamente ações destinadas a promoção do direito humano a alimentação
adequada (DHAA). Inicialmente,
o texto evidencia o histórico e os objetivos da criação do ObSAN-BS. Em seguida
apresenta, brevemente, alguns aspectos socioeconômicos dos municípios
litorâneos e, então, discorre a respeito das primeiras ações de investigação do
ObSAN-BS com a construção da pesquisa inédita
sobre o consumo alimentar na Baixada Santista. Ao final,
traz os principais desafios e perspectivas em 2025, os quais deverão mobilizar
a equipe da Secretaria Executiva e os parceiros do ObSAN-BS em favor da
construção de estratégias para garantir o direito à alimentação saudável nos
territórios. O OBSERVATÓRIO DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL DA
BAIXADA SANTISTA O Observatório de Segurança Alimentar e Nutricional da Baixada Santista
(ObSAN-BS) começou a
ser idealizado em 2023, como forma de atender às propostas de encaminhamentos
originados com os debates da Conferência Regional de Segurança Alimentar e
Nutricional da Baixada Santista realizada em julho de 20232. A partir de abril de 2024, a formação de uma rede de pessoas, reunindo
representantes do poder público e da sociedade civil organizada, comprometidas
com a questão da segurança alimentar e nutricional (SAN), assumiu as atividades
e tarefas para que, em 19 de outubro de 2024, o ObSAN-BS fosse oficialmente
lançado na cidade de Santos (Figuras, 2, 3 e 4). No estado
de São Paulo, o ObSAN-BS é a primeira iniciativa de caráter regional a
acompanhar a temática da segurança alimentar e nutricional. O ObSAN-BS tem como
perspectiva os nove municípios da Região Metropolitana da Baixada Santista
(RMBS): Bertioga, Cubatão, Guarujá, Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande,
Santos e São Vicente. A proposta do
ObSAN-BS é ser um canal de “articulação
entre as entidades regionais que permeiam a SAN e desenvolvem atividades
voltadas à garantia de acesso a alimentos seguros, com promoção de saúde e
qualidade de vida”3. O intuito é fazer valer o direito humano à alimentação adequada,
acompanhando e monitorando as políticas públicas de SAN nos municípios como a
realização e os investimentos ao Programa Nacional de Alimentação Escolar
(PNAE)4. O ObSAN-BS tem como valores: o combate à fome; a
valorização e a construção de políticas públicas de alimentação e nutrição; a articulação com o
poder público a fim de promover atividades que fomentem a segurança alimentar e
nutricional; e a manutenção de iniciativas governamentais em defesa do DHANA,
como os restaurantes populares, as cozinhas comunitárias, e outras ações de
economia solidária5. O ObSAN-BS tem como meta aproximar pesquisadores,
docentes, discentes e profissionais autônomos para desenvolver estudos sobre a
segurança ou insegurança alimentar e nutricional, bem como conhecer a realidade
das vulnerabilidades na Região Metropolitana da Baixada Santista. A ideia é
traçar estratégias de combate à fome e prevenção de doenças crônicas não
transmissíveis à população da região. Ao
propor articular os nove municípios, há o intuito de promover as construções
coletivas em defesa da SAN nos territórios, e dar visibilidade à agricultura
familiar, povos e comunidades tradicionais proporcionando o acesso aos
alimentos seguros e saudáveis. O ObSAN-BS tem por meta, também, promover eventos regionais sobre SAN, a fim
de ampliar os espaços de diálogo com a inclusão de todas as camadas sociais e,
deste modo, fortalecer os trabalhos em desenvolvimento e a serem desenvolvidos
na RMBS6. POPULAÇÃO
E ASPECTOS SOCIOECONÔMICOS DA BAIXADA SANTISTA A
Baixada Santista reúne nove municípios que compõem a Região Metropolitana da
Baixada Santista no estado de São Paulo (Figura
5). Juntas, a
população dos municípios de Bertioga, Cubatão, Guarujá, Itanhaém, Mongaguá,
Peruíbe, Praia Grande, Santos e São Vicente ultrapassam 1 milhão e oitocentas mil pessoas (Tabela 1). Entre os desafios que demandam atenção do poder público está o fato de
que mais de meio milhão de pessoas da Baixada Santista (32% da população) estão
inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à
Fome e,
portanto, em condição de fragilidade social7. Os quatro
municípios com maior número de habitantes (acima de 200 mil pessoas) são por
ordem: Santos, Praia Grande, São Vicente e Guarujá. Neste sentido, a análise dos números absolutos de pessoas
inscritas no CadÚnico revela que o município de São Vicente ocupa o primeiro
lugar com o maior número de pessoas em situação de vulnerabilidade social da
RMBS, seguidos por Guarujá e Praia Grande (Tabela 1). Em Peruíbe (54,5%), Itanhaém (54,3%), Bertioga (52,1%) e Mongaguá (42,4%), a percentagem da
população inscrita no CadÚnico em relação ao total da população dos respectivos
municípios está acima da média estadual, que é de 31,7%. Em contrapartida, em
Santos e Praia Grande há menor proporção de inscritos no CadÚnico em relação ao
total de pessoas dos seus municípios (Tabela 1). Em relação
aos aspectos socioeconômicos da Baixada Santista, destacam-se as informações
sobre a residência domiciliar em favelas8. Os municípios de Guarujá, Cubatão,
São Vicente e Bertioga com, respectivamente, 36,9%, 32,7%, 26,0% e 25,6%,
apresentam uma maior proporção de pessoas residindo em favelas e, portanto, em
áreas de maior vulnerabilidade social, econômica e ambiental (Figura 4). A respeito
do acesso às condições de saneamento básico, três variáveis indicam as
características municipais da Baixada Santista: rede de esgoto, água e coleta
de lixo9. Conforme nota-se na figura 5, os serviços de abastecimento
de água e de coleta de lixo atendem acima de 90% da população dos municípios.
Entretanto, um dos desafios da gestão municipal é o serviço de rede de esgoto
que somente em Praia Grande, Santos e São Vicente atendem acima de 90% da
população. Em Itanhaém, o caso mais crítico, somente 63,1%
da população tem o domicílio conectado à rede de esgoto (Figura 5). O CONSUMO ALIMENTAR NA BAIXADA
SANTISTA Entre
as primeiras ações de maior magnitude promovidas pela rede do ObSAN-BS está a
elaboração da primeira Pesquisa Exploratória sobre Consumo Alimentar da Baixada
Santista. O objetivo desse trabalho inédito está em iniciar as investigações de
campo para realizar estudos mais avançados e precisos sobre os hábitos
alimentares com enfoque na região. Além disso, tem por propósito traçar metas e
orientações a respeito da melhoria e aprimoramento das políticas públicas locais
intersetoriais de SAN. O formulário da
pesquisa exploratória contou com 38 perguntas e esteve disponível à população
da Baixada Santista para preenchimento online, entre outubro e dezembro
de 2024. A figura 6 destaca o folder criado para a divulgação da pesquisa nas
redes sociais. Como retorno dos
trabalhos de divulgação do questionário realizado pelos membros da Secretaria
Executiva do ObSAN-BS, houve um alcance de 558 respondentes. Os resultados
obtidos ajudam a constatar os problemas a serem priorizados e, até mesmo, a
ausência de informações sobre a temática de SAN. Após a tabulação e
análise das respostas, serão produzidos documentos com a intenção de subsidiar
as ações dos gestores públicos e, em especial, o desenvolvimento do Plano
Regional de fomento às políticas de SAN na Região da Baixada Santista. Após a 2ª Assembleia Geral
Ordinária do OBSAN-BS e considerando os dados obtidos na Pesquisa Exploratória
sobre Consumo Alimentar na RMBS, bem como a missão e os valores do
observatório, destacam-se os seguintes desafios e perspectivas: Desafios · Incentivar políticas públicas, que venham a contribuir para novas ações de combate à fome nas nove cidades da Região Metropolitana da Baixada Santista; · Auxiliar os municípios na aquisição de novos equipamentos de SAN, como banco de alimentos, restaurantes comunitários, cozinhas solidárias, entre outros; · Monitorar programas governamentais já existentes, relacionados à SAN, como o acompanhamento da execução de compras institucionais de alimentos (PAA, PNAE e PPAIS) nos nove municípios, principalmente no que se refere à aquisição mínima de 30% de gêneros alimentícios produzidos pela agricultura familiar; · Elaborar minuta de lei para orientar os municípios sobre a implantação do Programa de Aquisição de Alimentos municipal (PAA municipal); · Criar minuta de lei sobre o Serviço de Inspeção Municipal (SIM) para fortalecer a implementação nas cidades e que possam, também, atuar de forma consorciada; · Solicitar aos órgãos municipais e Secretaria de Agricultura e Abastecimento do estado de São Paulo que realize o Levantamento Censitário das Unidades de Produção Agropecuária do Estado de São Paulo (LUPA); e · Desenvolver outras pesquisas relacionadas à SAN, a saber: o Análise do estado nutricional de crianças das cidades de Santos e São Vicente; o Elaborar projetos para Editais de fomento como o Programa de Pesquisa em Políticas Públicas, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Perspectivas · Dar visibilidade ao trabalho realizado nos primeiros meses de vida do observatório regional; · Sensibilizar os governantes da região em prol do fomento de atividades estratégicas focadas no desenvolvimento e preservação da soberania e segurança alimentar e nutricional (SSAN); · Realizar ações junto ao Conselho de Desenvolvimento da Baixada Santista (CONDESB); · Resgatar as propostas das Conferências Municipais e Regional de Segurança Alimentar e Nutricional de 2023, no intuito de mobilizar os observadores em atividades resolutivas das conferências; · Mapear a agricultura familiar da RMBS; · Mapear os locais aptos para a comercialização de produtos in natura, minimamente processados e orgânicos, considerando o Cadastro do Agricultor Familiar (CAF) e as orientações para a alimentação saudável do Guia Alimentar para a População Brasileira; · Orientar os municípios aderidos ao Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN) para fazerem a adesão ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) junto ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS); · Realizar o II Simpósio de Segurança Alimentar e Nutricional da Baixada Santista – II SimpoSAN, em 18 de outubro de 2025; e · Usar as mídias e redes sociais, como Facebook e Instagram, além de outras como o YouTube, para a estratégia de comunicação voltada à realização de podcast que discuta todas as temáticas relevantes sobre soberania e segurança alimentar e nutricional.
O controle social e a
participação das organizações da sociedade civil em fóruns consultivos e deliberativos
contribuem para o maior êxito de proposições e monitoramento de políticas
públicas. O coletivo ObSAN-BS, por seu caráter regional, interdisciplinar e
interinstitucional, tem o potencial de impulsionar, por exemplo, o trabalho dos
conselheiros nas várias instâncias do Conselho de Segurança Alimentar e
Nutricional, e mobilizar os diversos sujeitos sociais nos territórios. Ao
assumir a defesa de práticas de produção e consumo alimentar fundamentada em
uma perspectiva da economia solidária, justiça social e ambiental, carrega as
sementes para a transformação social. O controle social e a
participação das organizações da sociedade civil em fóruns consultivos e deliberativos
contribuem para o maior êxito de proposições e monitoramento de políticas
públicas. O coletivo ObSAN-BS, por seu caráter regional, interdisciplinar e
interinstitucional, tem o potencial de impulsionar, por exemplo, o trabalho dos
conselheiros nas várias instâncias do Conselho de Segurança Alimentar e
Nutricional, e mobilizar os diversos sujeitos sociais nos territórios. Ao
assumir a defesa de práticas de produção e consumo alimentar fundamentada em
uma perspectiva da economia solidária, justiça social e ambiental, carrega as
sementes para a transformação social. 1Atualmente, a Secretaria Executiva
do ObSAN-BS é composta por Fabrício Gomes dos Santos, Hemerson Fernandes
Calgaro, Juanita Trigo Nasser, Juliana Aparecida de Jesus Dias, Paula Andrea
Martins, Renato Prado, Rosana Andrade Leite, Ubiraci Loureiro Sarzedas e
Vanuzia Teixeira de Souza. 2OBSERVATÓRIO DE SEGURANÇA ALIMENTAR
E NUTRICIONAL DA BAIXADA SANTISTA. Sobre
o ObSAN-BS. Santos: ObSAN-BS, 2024. Disponível em:
https://www.obsan-bs.com/about-4. Acesso em: 18 mar. 2025. 3Op. cit.
nota 2. 4Op. cit.
nota 2. 5Op. cit.
nota 2. 6Op. cit.
nota 2. 7BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e
Combate à Fome. Secretaria de Avaliação, Gestão da Informação e Cadastro Único.
Cadastro Único. Brasília: SAGICAD,
2024. Disponível em: https://aplicacoes.cidadania.gov.br/vis/data3/data-explorer.php
Acesso em: 13 de fev. 2025. 8IBGE. Censo
demográfico do Brasil 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2022. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/panorama.
Acesso em: 13 de fev. 2025. 9Op. cit.
nota 8. Palavras-chave:
segurança alimentar e nutricional, observatório, organização social COMO CITAR ESTE ARTIGO RAMOS. S. de F. et
al. N. Primeiras Ações do Observatório de Segurança Alimentar e Nutricional
da Baixada Santista, Estado de São Paulo. Análises e Indicadores do
Agronegócio, São Paulo, v. 20, n. 3, p. 1-10, mar. 2025. Disponível em: colocar o link do
artigo. Acesso em: dd mmm. aaaa.
Data de Publicação: 26/03/2025
Autor(es):
Soraia de Fátima Ramos (sframos@sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor
Vanuzia Teixeira de Souza Batista (vantsouza@gmail.com) Consulte outros textos deste autor
Fabrício Gomes dos Santos (fabricio.nutrisan@gmail.com) Consulte outros textos deste autor
Juanita Trigo Nasser (juanita.trigo01@gmail.com) Consulte outros textos deste autor
Ubiraci Loureiro Sarzedas (ulsarzedas@uol.com.br) Consulte outros textos deste autor
Paula Andrea Martins (paula.martins@unifesp.br) Consulte outros textos deste autor