Pular para o conteúdo

Análises e Indicadores do Agronegócio

Ocupação da Força de Trabalho Feminina na Agropecuária Paulista¹

Celma da Silva Lago Baptistella, Maria Carlota Meloni Vicente, José Eduardo Rodrigues Veiga, Carlos Eduardo Fredo, Vera Lucia Ferraz dos Santos Francisco

Publicado em

            As mulheres sempre participaram intensamente das atividades agropecuárias. Na estrutura de produção familiar, geralmente trabalham na pecuária leiteira, nas pequenas indústrias rurais artesanais, tais como: as de farinha, doces e queijos, além de serem arregimentadas para as colheitas de algodão, de café e demais cultivos.

            Em 1971 a participação da população trabalhadora feminina residente nos imóveis rurais em relação ao total de residentes era de 26,3%, passando para 25,4% em 1981. Em termos absolutos o total de trabalhadoras residentes, que era de 347,8 mil em 1971, decresceu para 192,1 mil em 1981. A queda mais acentuada ocorreu nas categorias de parceiros, arrendatários, colonos e empreiteiros. Relativamente, há um aumento na participação das mulheres familiares do proprietário bem como das assalariadas (mensalistas e diaristas residentes) (VICENTE, 1997)2.

            Em 1990 a parcela da população trabalhadora feminina residente nos imóveis rurais que era de 21,1% (166,2 mil pessoas) ficou ao redor de 24,2% em 2000 (136,4 mil pessoas), com queda de 29,3 mil mulheres ocupadas, concentradas, principalmente, na parceria, no colonato e na categoria empreiteiros. Em 2000, as familiares do proprietário (80,9 mil e 59,1%) e assalariadas (30,3 mil e 22,1%) constituem as categorias mais representativas. É com o assalariamento que o trabalho feminino deixa de ser configurado como complemento ao trabalho masculino. No período, acima citado, a média de mulheres assalariadas foi de 30 mil, ou seja, constitui-se na segunda categoria mais importante (VICENTE, 1997) (Tabela 1 e Figura 1).

            Parte da ocupação feminina residente no setor rural é composta de meninas de até 15 anos sendo que no período analisado passou de 10,7% (14.673 meninas) em 2000 para 5,7% (8.334 meninas) em 2006. Deve-se atentar que estas meninas constituem-se em sua maioria como membro da família do proprietário. Mesmo assim, na categoria assalariados o número de jovens vem crescendo nos últimos anos o que é preocupante, pois esta faixa etária deveria estar voltada, principalmente, para seu desenvolvimento educacional. Mas o peso dessa mão-de-obra na renda familiar é a principal barreira para que estas jovens se voltem exclusivamente para sua formação.

           No período mais recente, 2000-20063, a participação da população trabalhadora feminina residente nas UPAs em relação ao total de residentes variou de um mínimo de 22,7% em 2003 (108,1 mil mulheres) a um máximo de 29,1% em 2006 (142,2 mil mulheres). A média no período considerado foi de 25,6% (Tabela 2 e Figura 2).

Tabela 1 - Estimativa da População Trabalhadora Feminina Residente nas UPAs, por Categoria, Estado de São Paulo, 2000-06

Figura 1 - Evolução da Ocupação Feminina Residente na UPA em Atividades Agropecuárias, Estado de São Paulo, 2000-2006. 

Fonte: IEA/CATI.

Tabela 2 - Número de Mulheres no Total da População Trabalhadora em Atividades Agropecuárias, Residentes na UPA, Estado de São Paulo, 2000-2006

 Ano
N. de mulheres
Total de trabalhadores
%
2000
136.884 
565.782 
24,2
2001
130.642 
509.781 
25,6
2002
138.275 
572.872 
24,1
2003
108.142 
477.156 
22,7
2004
112.972 
432.362 
26,1
2005
122.709 
441.158 
27,8
2006
142.154 
488.370 
29,1

Fonte: Instituto de Economia Agrícola e Coordenadoria de Assistência Técnica Integral

Figura 2 - Participação Percentual das Mulheres no Total de Trabalhadores Ocupados, Residentes na UPA, Estado de São Paulo, 2005-2006.

Fonte: IEA/CATI.

            Ao se comparar as estimativas do início da década de 1970 com as atuais, pode-se verificar que o percentual das trabalhadoras em relação ao total de residentes pouco se alterou, porém, em termos absolutos, a queda foi significativa, acompanhando o movimento observado para o mercado de trabalho agrícola como um todo, em decorrência da modernização dos processos de produção na agricultura.

            Ressalte-se que uma parcela de trabalhadores deixa o campo apenas no aspecto referente à residência, no entanto, permanece na atividade agrícola. Tal mudança deveu-se, em parte, à necessidade de proporcionar à família melhores condições de serviços educacionais e de saúde, por exemplo. Com a mudança para a cidade, para a mulher fica mais difícil exercer a atividade de trabalhadora no campo, pois os espaços mais distantes impedem na maioria das vezes que se concilie o trabalho produtivo e o doméstico.

            Há que se considerar, também, que uma parcela dos trabalhadores agrícolas não consegue se inserir no mercado de trabalho urbano, o que o impele a retornar ao campo, principalmente, como trabalhador temporário. A modernização da agricultura, ao vir acompanhada da monocultura crescente, casos mais da cana-de-açúcar e da laranja, veio acompanhada de importante intensificação da ocupação das trabalhadoras para sustentar sua expansão.

            A inserção desta trabalhadora como bóia-fria está relacionada com a forma como tem se dado o próprio desenvolvimento da agricultura, cujas mudanças nos processos produtivos e nas formas de organização das atividades produtivas intervêm constantemente no cenário da produção agropecuária.

            Na contratação para o corte da cana, por exemplo, não existe distinção entre homens e mulheres, o que importa às empresas sucroalcooleiras é o potencial de trabalho, ou seja, a quantidade de toneladas que o trabalhador possa cortar em dias normais. Embora o corte da cana caracterize-se por ser uma atividade em que predomina a ocupação masculina, a presença da mulher ocorre dada a habilidade que possuem no manuseio do podão.

            Ressalte-se que ao ocorrer o processo de mecanização das operações agrícolas, mais recentemente incluindo a colheita, as trabalhadoras, vítimas de histórica discriminação no campo, são as primeiras a perder sua ocupação.

            Em junho e novembro de 2006, a ocupação das mulheres volantes correspondeu a 17,9% (43,7 mil) e a 15,6% (36,7 mil), respectivamente, do total de volantes ocupados. No período considerado, de novembro de 2000 a novembro de 2006, ocorreram oscilações na ocupação das mulheres volantes nos meses de junho e novembro. Dentre as principais atividades empregadoras de mão-de-obra (feminina) destacam-se as colheitas do café e de cana em junho, enquanto em novembro se processa a colheita de laranja bem como a finalização da colheita de cana. Portanto, variações na produção desses cultivos afetam a ocupação da mão-de-obra. A participação das mulheres volantes (em média) em novembro de 2004 foi de 9,4% (31,4 mil) e de 21,4% (52,7 mil) em novembro de 2005 (Tabela 3 e Figura 3).

Tabela 3 - Número de Mulheres Volantes e Participação no Total Ocupado na Categoria, Estado de São Paulo, Junho e Novembro de 2000 a 2006

Mês
Mulheres
Total
%
Nov./00
34.921
268.472
13,0
Jun./01
26.574
195.720
13,6
Nov./01
44.677
229.536
19,5
Jun./02
48.837
251.904
19,4
Nov./02
47.343
256.880
18,4
Jun./03
44.555
232.113
19,2
Nov./03
35.246
234.512
15,0
Jun./04
29.018
181.507
16,0
Nov./04
31.452
335.961
9,4
Jun./05
37.481
242.858
15,4
Nov./05
52.704
246.031
21,4
Jun./06
43.701
244.688
17,9
Nov./06
36.715
235.932
15,6

Fonte: Instituto de Economia Agrícola e Coordenadoria de Assistência Técnica Integral.

Figura 3 - Ocupação das Trabalhadoras Volantes, Estado de São Paulo, Junho e Novembro de 2000 a 2006.

Fonte: IEA/CATI.

            Ao se considerar anos anteriores, verifica-se que as trabalhadoras volantes registravam uma parcela maior no total da ocupação: em abril de 1979 correspondiam a 24,4% (99,4 mil), passando para 28,3% (124,4 mil) em abril de 1986. A partir de então, as estimativas indicam decréscimos, chegando a 22,8% (71,9 mil) em abril de 1991.

            Ao mesmo tempo em que são esperados decréscimos na oferta de trabalho para as mulheres nas etapas da produção a serem mecanizadas, como a colheita de cana, oportunidades têm surgido em setores como na hortifruticultura, notamente no cultivo e processamento de hortaliças, que ocupou, em 2006, 56% de mão-de-obra feminina na região sudeste4.
_________________________________________________________________
1Artigo integrante do projeto NRP 1901- Demografia e Ocupação de Mão-de-obra no Rural Paulista, 2000-2006.
2VICENTE, M. C. M. Inserção da força de trabalho feminina: as bóia-frias na agricultura do sudoeste paulista. 1997. 228 p. Tese (Doutorado) - Faculdade de Letras, Ciências e Humanidades, Universidade de São Paulo, São Paulo.
3Para estimar o total de mulheres ocupadas nas atividades rurais do Estado de São Paulo de 2000 a 2006, utilizou-se uma amostra probabilística composta por 3.204 unidades de produção agropecuária (UPAs), sorteada com base no cadastro obtido no Censo Agropecuário realizado por meio do IEA e da CATI, conhecido por Projeto LUPA. O trabalho residente foi obtido em novembro e o volante em junho e novembro.
4GEORGINO, M. Desmistificando a mão-de-obra feminina. Hortifruti Brasil, Piracicaba, v. 6, n. 65, p. 6-13, jan./fev. 2008.

Palavras-chave: ocupação feminina, trabalho rural.

Baixar PDF

Como citar

CELMA DA SILVA LAGO BAPTISTELLA; MARIA CARLOTA MELONI VICENTE; JOSÉ EDUARDO RODRIGUES VEIGA; CARLOS EDUARDO FREDO; VERA LUCIA FERRAZ DOS SANTOS FRANCISCO. Ocupação da Força de Trabalho Feminina na Agropecuária Paulista¹. Análises e Indicadores do Agronegócio, 2008. Disponível em: https://iea.agricultura.sp.gov.br/out/LerRea.php?codTexto=9274. Acesso em: 22/10/2026.