
Empresas multinacionais, como a Del Monte (capital árabe, com sede nos EUA), a
americana Dole e a irlandesa Fyffes Pineapples Limited, mobilizaram-se para
ampliar os investimentos no Brasil, estimuladas pela redução da barreira
tarifária imposta pela União Européia até 2005. Em primeiro de Janeiro de 2006,
a União Européia adotou um novo regime de importação para o setor de bananas, em
que se fixou uma tarifa única (de 176 euros) com base no princípio comercial de
Nações Mais Favorecidas, substituindo a tarifa de 680 euros que incidia sobre as
exportações que ultrapassassem a quota de 2,2 milhões de toneladas. Também fixou
uma quota anual de importação de 775 mil toneladas de bananas originárias dos
países do ACP (basicamente ex-colônias européias) livre de tarifas
aduaneiras.
A
Fyffes comprou 60% da empresa brasileira Nolem (tradicional exportadora de
melões), constituindo a Banesa (Bananas do Nordeste) com projeto para implantar 1.500 hectares de banana, até 2007, dos
quais 320 já plantados, num investimento de R$ 55 milhões de reais, que deverá
gerar 2.250 empregos diretos. Com isso, o Ceará se lançou no mercado
internacional com o status de segundo maior
exportador do Nordeste e terceiro do Brasil, ficando atrás apenas do Rio Grande
do Norte e de Santa Catarina. A expectativa é que, no próximo ano, o Ceará
esteja exportando cerca de US$ 8 milhões, o que equivale a 1,5 milhão de caixas
de 18 kg da fruta.¹
Com
os aumentos da produção de banana por parte da Del Monte (60 mil toneladas em
2004, 70 mil toneladas em 2005 e 70 mil toneladas em 2006) e da Banesa, o
Nordeste brasileiro pode alcançar a exportação de 100 mil toneladas em
2006.²
A
exportação brasileira de banana, nos nove primeiros meses de 2006, foi 20,2%
superior em valor e 4,7% inferior em quantidade a de igual período de 2005,
segundo os dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do
Desenvolvimento (SECEX/MDIC)³. Desses totais, a parcela destinada à
União Européia aumentou 50% no valor e 47,4% na quantidade, enquanto a parcela
enviada ao Mercosul caiu 22,7% no valor e 27,3% na quantidade, no mesmo período.
A resultante dessas tendências de sentido contrário foi o substancial aumento da
supremacia do destino europeu dado à banana brasileira, chegando a 73,1% do
valor contra 26,4% das exportações aos países do Mercosul.
Os
países que mais ampliaram o valor de importação da fruta brasileira foram
Portugal (aumento imensurável), Holanda (mais 304,2%), Alemanha (mais 177,1%) e
Reino Unido (mais 67%), que, em conjunto, aumentaram sua participação no total
de 36,5% para 60,3%. Na contra-mão, a Itália importou menos banana brasileira no
período analisado (menos 32,7%) e reduziu sua participação relativa de 21,7%
para 12,1%.
Em
decorrência do grande aquecimento nas transações com a Comunidade Européia, a
queda das exportações para Argentina e Uruguai proporcionou a redução da
importância relativa do Mercosul de 41% para 26,4% do valor, embora permaneça
predominante na quantidade (53,4% do total nos primeiros nove meses de 2006). Os
preços recebidos pelos exportadores brasileiros foram de aproximadamente US$ 300
(variedade Grand Naine) nas vendas aos países da União Européia e US$ 95 ao
Mercosul (tabela 1). Redução na safra catarinense provocada pela estiagem em
2006 promoveu a recuperação do preço da banana no mercado interno, o que
desestimulou a exportação.
Tabela 1 - Exportações brasileiras de banana, janeiro a setembro de 2005 e janeiro a setembro de 2006, por país de destino
| País de destino |
|
|
|
Participação % no valor | |||||||
| Quantidade 1000 t |
Valor US$ milhões |
Preço US$/t |
Quantidade 1000 t |
Valor US$ milhões |
Preço US$/t |
Quantidade % |
Valor % |
Preço % |
2005 | 2006 | |
| Reino Unido |
26,24 |
7,72 |
294,19 |
42,27 |
12,89 |
305,01 |
61,1 |
67,0 |
3,7 |
31,7 |
44,0 |
| Argentina |
77,31 |
6,35 |
82,09 |
50,00 |
4,49 |
89,83 |
-35,3 |
-29,2 |
9,4 |
26,1 |
15,3 |
| Itália |
17,86 |
5,27 |
295,26 |
12,12 |
3,55 |
292,85 |
-32,1 |
-32,7 |
-0,8 |
21,7 |
12,1 |
| Uruguai |
34,98 |
3,64 |
104,19 |
31,68 |
3,23 |
101,94 |
-9,5 |
-11,4 |
-2,2 |
15,0 |
11,0 |
| Holanda |
1,97 |
0,60 |
305,97 |
8,05 |
2,43 |
302,32 |
309,1 |
304,2 |
-1,2 |
2,5 |
8,3 |
| Alemanha |
1,96 |
0,63 |
323,50 |
5,82 |
1,75 |
301,51 |
197,3 |
177,1 |
-6,8 |
2,6 |
6,0 |
| Portugal |
0,00 |
0,01 |
... |
1,91 |
0,57 |
298,29 |
... | ... | ... |
0,0 |
1,9 |
| Sub-total |
160,32 |
24,22 |
151,10 |
151,84 |
28,92 |
190,46 |
-5,3 |
19,4 |
26,0 |
99,5 |
98,8 |
| Outros |
0,04 |
0,13 |
... |
0,94 |
0,35 |
... | ... |
175,6 |
... |
0,5 |
1,2 |
| Total |
160,35 |
24,35 |
151,86 |
152,78 |
29,27 |
191,56 |
-4,7 |
20,2 |
26,1 |
100,0 |
100,0 |
| Uniao Europeia |
48,03 |
14,28 |
297,30 |
70,78 |
21,41 |
302,54 |
47,4 |
50,0 |
1,8 |
58,6 |
73,2 |
| Mercosul |
112,29 |
9,99 |
88,97 |
81,68 |
7,72 |
94,53 |
-27,3 |
-22,7 |
6,2 |
41,0 |
26,4 |
(...) Dados pouco consistentes
Quanto aos portos de embarque, a participação dos situados no Nordeste
brasileiro aumentou na mesma proporção das exportações à União Européia. A
região produtora e
exportadora da banana brasileira enviada para a Europa abrange o Vale do
Açu (Rio Grande do Norte) e o distrito de Tomé, na divisa de Limoeiro do Norte
com Quixeré (Ceará), áreas próximas do porto de Pecem (CE), responsável por
70,3% do valor das exportações brasileiras de banana de janeiro a setembro de
2006. Em conseqüência, as saídas rodoviárias pelos portos do Sul (Santa Catarina
e Rio Grande do Sul) tiveram sua importância reduzida de 41,6% para 26,7%
(tabela 2).
Tabela 2 - Exportações brasileiras de banana, janeiro a setembro de 2005 e janeiro a setembro de 2006, por porto de saída
| Porto |
|
|
|
Participação % no valor | |||||||
| Quantidade 1000 t | Valor US$ milhões | Preço US$/t | Quantidade 1000 t |
Valor US$ milhões | Preço US$/t | Quantidade % | Valor % | Preço % |
2005 | 2006 | |
| Pecem(CE) - Porto |
47,98 |
14,08 |
293,35 |
68,54 |
20,57 |
300,11 |
42,8 |
46,1 |
2,3 |
57,8 |
70,3 |
| Dionísio Cerqueira(SC) |
68,54 |
5,52 |
80,61 |
38,51 |
3,39 |
87,90 |
-43,8 |
-38,7 |
9,0 |
22,7 |
11,6 |
| Jaguarão(RS) - Rod. |
11,25 |
1,08 |
95,77 |
14,70 |
1,41 |
95,71 |
30,7 |
30,6 |
-0,1 |
4,4 |
4,8 |
| Chui (RS) |
12,99 |
1,49 |
114,45 |
8,01 |
0,99 |
123,11 |
-38,3 |
-33,6 |
7,6 |
6,1 |
3,4 |
| Uruguaiana(RS) Rod. |
5,29 |
0,49 |
92,82 |
8,65 |
0,85 |
98,62 |
63,5 |
73,7 |
6,2 |
2,0 |
2,9 |
| Santana do Livramento(RS) Rod |
10,33 |
1,06 |
102,20 |
8,48 |
0,81 |
95,17 |
-17,9 |
-23,5 |
-6,9 |
4,3 |
2,8 |
| Sub-total |
156,37 |
23,71 |
151,63 |
146,90 |
28,01 |
190,67 |
-6,1 |
18,1 |
25,7 |
97,4 |
95,7 |
| Outros |
3,98 |
0,64 |
160,74 |
5,89 |
1,26 |
213,80 |
47,7 |
96,5 |
33,0 |
2,6 |
4,3 |
| Total |
160,35 |
24,35 |
151,86 |
152,78 |
29,27 |
191,56 |
-4,7 |
20,2 |
26,1 |
100,0 |
100,0 |
| Nordeste |
47,99 |
14,14 |
294,63 |
71,03 |
21,39 |
301,21 |
48,0 |
51,3 |
2,2 |
58,1 |
73,1 |
| Sul |
112,33 |
10,13 |
90,21 |
81,70 |
7,82 |
95,74 |
-27,3 |
-22,8 |
6,1 |
41,6 |
26,7 |
| Sudeste |
0,03 |
0,08 |
... |
0,05 |
0,05 |
... |
83,8 |
-35,1 |
... |
0,3 |
0,2 |
Os estados brasileiros que mais ampliaram suas exportações de banana no período analisado foram Ceará (cuja participação aumentou de 0,2% para 11,9% do valor total) e Rio Grande do Norte (aumento de 27,5% que ampliou sua participação relativa de 57,9% para 61,4%). Já as exportações de banana de Santa Catarina e São Paulo reduziram em 21,2% e 27,2%, respectivamente (tabela 3).
Tabela 3 - Exportações brasileiras de banana, janeiro a setembro de 2005 e janeiro a setembro de 2006, por estado de origem
| Estado |
|
|
|
Participação % no valor | |||||||
| Quantidade 1000 t | Valor US$ milhões | Preço US$/t | Quantidade 1000 t |
Valor US$ milhões |
Preço US$/t | Quantidade % | Valor % | Preço % |
2005 | 2006 | |
| Rio Grande do Norte |
48,20 |
14,10 |
292,59 |
61,37 |
17,98 |
292,94 |
27,3 |
27,5 |
0,1 |
57,9 |
61,4 |
| Santa Catarina |
104,75 |
9,24 |
88,25 |
78,02 |
7,29 |
93,41 |
-25,5 |
-21,2 |
5,9 |
38,0 |
24,9 |
| Ceará |
0,01 |
0,06 |
... |
10,16 |
3,49 |
343,25 |
... | ... | ... |
0,2 |
11,9 |
| São Paulo |
4,07 |
0,59 |
144,31 |
3,03 |
0,43 |
141,49 |
-25,7 |
-27,2 |
-2,0 |
2,4 |
1,5 |
| Sub-total |
157,03 |
23,99 |
152,77 |
152,58 |
29,18 |
191,26 |
-2,8 |
21,6 |
25,2 |
98,5 |
99,7 |
| Outros |
3,32 |
0,36 |
108,66 |
0,20 |
0,08 |
... |
-94,0 |
-76,5 |
... |
1,5 |
0,3 |
| Total |
160,35 |
24,35 |
151,86 |
152,78 |
29,27 |
191,56 |
-4,7 |
20,2 |
26,1 |
100,0 |
100,0 |
| Nordeste |
48,21 |
14,16 |
293,69 |
71,57 |
21,48 |
300,19 |
48,5 |
51,8 |
2,2 |
58,1 |
73,4 |
| Sul |
105,24 |
9,38 |
89,08 |
78,17 |
7,35 |
94,00 |
-25,7 |
-21,6 |
5,5 |
38,5 |
25,1 |
| Sudeste |
6,77 |
0,80 |
118,83 |
3,05 |
0,43 |
142,63 |
-55,0 |
-46,0 |
20,0 |
3,3 |
1,5 |
(...) Dados pouco consistentes
Somente na região do Vale do Açu, a multinacional Del Monte produz numa área
aproximada de cinco mil hectares divididos em onze fazendas sediadas nos
municípios de Ipanguaçu, Assu, Carnaubais e Alto do Rodrigues e emprega
aproximadamente três mil trabalhadores nas linhas de produção, encaixotamento e
transporte.²
A
exportação da banana cearense está sendo feita com o apoio da Secretaria de
Agricultura e Pecuária (Seagri), que firmou parceria com a Banesa e está
incentivando os pequenos produtores a plantarem na região, com a garantia de
aquisição de pelo menos 30% da produção. Com o apoio do governo cearense, os
empresários da Banesa pretendem triplicar a área plantada e gerar mais postos de
trabalho, passando dos cerca de 500 empregos diretos e 1,5 mil indiretos atuais
para 5 mil diretos e 15 mil indiretos nos próximos quatro ou cinco
anos.4
Assim, o fim das pesadas tarifas extra-quotas aplicadas pela União Européia à
banana exportada pelo Brasil está estimulando a ampliação da base produtiva nos
Estados do Rio Grande do Norte e do Ceará, com repercussões na ampliação do
emprego, na demanda por insumos agrícolas e no desenvolvimento regional. Esses
números ainda são modestos diante do peso de grandes exportadores como os
equatorianos, mas muito importantes para o pouco desenvolvido Nordeste
brasileiro. Todavia a União Européia deverá monitorar as transformações na
estrutura produtiva-exportadora de banana e, eventualmente, ajustar tarifas e
quotas para manter a proteção das ex-colônias e evitar desequilíbrios
importantes no mercado da fruta.5
___________________________
1 GOVERNO DO CEARÁ: Ceará Faz Sua Primeira
Exportação Comercial De Banana. http://www25.ceara.gov.br/noticias/noticias_detalhes.asp?nCodigoNoticia=15932
2 JORNAL DE FATO: Vale do Açu
espera exportar 80 mil toneladas de banana em 2006 http://www.defato.com/14_05_2006/estado.php.
3 Secretaria de Comércio
Exterior (SECEX)/Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
(MDIC), 2006: http://www.mdic.gov.br
4 BORNEL, Claude. Yes! O
Ceará exporta banana http://www.geranegocio.com.br/html/geral/vermateria.asp?id=15803&area=9&titulo=Yes!%20O%20Cear%C3%A1%20exporta%20banana&parte=1
5 Artigo registrado no CCTC-IEA
sob número HP-110/2006.

