“A paz: uma trégua para a guerra.”
Imperialismo, o Estágio Superior do Capitalismo
(Lenin,
1917)
A região persa, território em que se situa o Irã,
possui uma cultura milenar, nisso se assemelhando muito aos chineses. Não se
posicionar no curto prazo, ao contrário de seus agressores, constitui uma
característica desse tipo de cultura. Esse fato não referenda que, desde o
pós-segunda guerra, o país tenha experimentado dois regimes de governança:
monarquia seguida pela teocracia, sendo ambos de caráter sumamente autoritário
e opressor (estimativa de 30 mil vítimas nas manifestações desse ano).
Ao atacar o Irã, o mandatário estadunidense resumiu
sua intenção: conduzir uma guerra preventiva, ou seja, uma guerra para evitar
outra guerra (paroxismo em seus termos). Tal narrativa sequer encontra amparo
nos fatos pregressos, pois em meados do ano passado, fez-se anúncio que o
complexo de enriquecimento de urânio iraniano havia sido destruído pelas bombas
antibunkers (de penetração). Estando as instalações militares anunciadas como
arruinadas, qual a capacidade de um país agredir a outro?
O legado dos ataques estadunidenses/israelenses aos
países persas (Iraque, Afeganistão), do norte da África (Líbia) e asiáticos
(Vietnã) sempre redundaram em fracassos, pois não produziram horizontes mais
auspiciosos às sociedades que padeceram sob tais intervenções. Apenas nesse
primeiro ano de governo Trump foram realizadas operações em sete países (Somália, Iraque, Iêmen, Nigéria, Síria,
Irã e Venezuela), somando 658 ataques aéreos no primeiro ano de sua volta ao
governo, superando todo os quatro anos de mandato de Biden. Nessa agressão ao Irã, o mandatário estadunidense
criou para si um gigantesco problema, com consequências políticas a cada dia
mais imprevisíveis. Adentramos em cenário hiperbólico, em que numa mesma semana
os extremos de campos opostos são pautados.
Ainda que o crescente número de baixas apareça nos
rodapés (160 meninas de uma escola infantil ao primeiro dia dos ataques), o
destaque midiático focaliza essencialmente os reflexos ocasionados pelo
fechamento do estreito de Ormuz. Passagem obrigatória para o Mar Arábico, por
esse estreito circulam as mais estratégicas mercadorias, como o petróleo (cerca
de 40% da oferta mundial) e o gás natural (entre 20% e 25% da oferta global),
sendo esse o principal mecanismo de transmissão de preços do conflito para a
economia mundial. Inúmeros países são absolutamente dependentes desse fluxo
para seu suprimento energético a começar pela China, sem dúvida a nação mais
prejudicada pelo fechamento dessa passagem.
O Brasil, distante do epicentro do conflito poderá
ser significativamente afetado. Atualmente, posicionando-se entre os maiores
países exportadores de petróleo no mundo, a elevação das cotações da commodity
traz vantagens econômicas ao país (pagamento de royalties ao tesouro
nacional), encarecendo, noutra ponta, os derivados importados (diesel e
fertilizantes nitrogenados). Essas duas mercadorias formam os pilares cruciais
da composição dos custos de produção dos sistemas agrários brasileiros,
especialmente, nas lavouras de grãos.
O banco JP Morgan avaliou que, a cada 10% de
majoração nas cotações do petróleo, há uma elevação de 0,1% no PIB e que impacta
a inflação em 0,2%, ambos movimentos melhorando a posição fiscal do país1.
O tempo de duração do conflito constitui o elemento determinante nas
possibilidades de desenhos de cenários prospectivos.
A balança comercial entre Brasil e Irã é favorável
ao nosso país. Em 2025, o Brasil exportou US$2,9 bilhões para a nação persa,
importando dela apenas US$84,5 milhões2. Todavia, o principal
circuito afetado pelo conflito é o de investimentos diretos oriundo dos fundos
soberanos dos países do Oriente Médio, levando-os a retardar decisões de
investimentos e paralisar projetos2. Na carteira de ativos, reina a
insegurança.
Numa tentativa de construir paralelos, após a
invasão da Rússia ao território ucraniano, houve disparada nos preços dos
fertilizantes3. Assim como naquela ocasião, o novo conflito ocorre
em fevereiro, oferecendo relativo alívio pois acontece com adiantada fase de
colheita da soja e preparação para o plantio do milho nos Centro-Sul brasileiro
(demanda não tão imediata). Segundo analistas do mercado de fertilizantes, há
margem de espera com capacidade de os estoques existentes suprirem a demanda
mais imediata. Todavia, a cotação da ureia (principal nitrogenado empregado nas
lavouras de grãos e obtido a partir do gás natural e outros hidrocarbonetos)
exibe salto nas cotações, superando os US$460,00/t do produto4. No
primeiro bimestre de 2026, houve redução de 34% na importação de fertilizantes
no Brasil5.
O diesel, outro insumo crucial para o agronegócio
brasileiro, exibe crescente ampliação da defasagem entre cotações
internacionais e preços domésticos. Importando cerca de 25% das necessidades de
abastecimento, recente estimativa indicou que os preços aqui praticados se posicionam
em até 30% abaixo da referência internacional. A Petrobras historicamente não
repassa de imediato as variações de preços, mas, diante de tamanha defasagem,
deve-se aguardar algum reajuste nas bombas, com efeitos inflacionários sobre
toda a matriz econômica nacional.
O mercado do milho tem nos países da península
arábica e persas um importante destino das exportações brasileiras. O Irã,
isoladamente, responde por aproximadamente 25% das exportações do grão6.
Entretanto, a oferta do milho primeira safra tem destino majoritário ao
abastecimento interno (rações, produtos alimentícios, etanol), sendo aquele
colhido na segunda safra, preferencialmente, o que atende à demanda dos
clientes internacionais. Assim, caso o conflito venha a arrefecer e as negociações
pelo cessar fogo ganhem impulso, as exportações de milho devem exibir apenas um
ligeiro declínio.
O açúcar também possui expressão no comércio
exterior brasileiro na região do conflito, sendo o estado de São Paulo
protagonista nos embarques dessa mercadoria. Mais de 83% do desembolso dos
Emirados Árabes Unidos ocorreu para a aquisição de produtos do segmento
sucroenergético paulista, seguido pela Arábia Saudita, que comprometeu 74% de
suas compras totais com esses produtos. Portanto, o estado de São Paulo,
mediante a impossibilidade de acessar os portos desses países pode experimentar
perdas no comércio exterior de açúcar e etanol7.
Com o fechamento dos portos daquela região,
obrigam-se os exportadores a encontrar novos pontos para atracação dos navios.
Talvez o maior desafio aos exportadores brasileiros consista no rearranjo
logístico. Djbuti e Jordânia, aparentemente, são os melhores posicionados
enquanto hub alternativo para os cargueiros brasileiros que nesse
momento aguardam definições quanto a passagem pelo Estreito de Ormuz.
O ranking dos embarques brasileiros para a
região como um todo é liderado pelas proteínas animais (abate halal). A Arábia
Saudita importa do Brasil quase dois terços de sua demanda por carne de frango.
Os demais países afligidos pelo conflito também são importantes demandantes do
produto brasileiro, sendo observado inclusive incremento nos embarques de carne
bovina8.
Os ataques dos EUA e Israel ao Irã, além
de provocar diretamente a morte de civis, aprofunda a crise climática e a
insegurança aos povos que habitam a região. Os danos ambientais causados por
bombardeios têm causado poluição de grandes proporções impactando ecossistemas
marinhos (devido ao vazamento de petróleo derivado dos cargueiros e destroieres
afundados) e terrestres (incêndios florestais e contaminação dos cursos d’água),
o que afetarão, no curto e longo prazo, a produção e o consumo de alimentos,
além do acesso à água potável. Por sua vez, os ataques às infraestruturas de
dessalinização agravarão ainda mais a crise hídrica no país.
Ao final da primeira semana de março de 2026, o
conflito não exibia qualquer sinal de arrefecimento. Essa condição impede
qualquer possibilidade de construção de cenários prospectivos para o desfecho
dessa conflagração e seus reflexos sobre a economia mundial e, particularmente,
sobre São Paulo e o Brasil. Foi criado um tremendo problema para a geopolítica
internacional com consequências bastante imprevisíveis. Aparentemente, não
haverá negociações de paz nos próximos dias ou semanas. Começa-se a formar um
consenso entre líderes globais de que Trump tenha ido longe demais. O ataque ao
Irã foi uma decisão que talvez tenha se tornado algo sem retorno, irrevogável e
com desfechos imprevisíveis. Enquanto isso, o titular estadunidense se mantém
sobrevivendo a tudo que faz.
1CARNEIRO, L. et
al. Alta da inflação é maior risco ao Brasil com guerra no Irã, dizem
analistas. Valor Econômico, São Paulo, p. A4, 3 mar. 2026. Disponível
em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/03/03/alta-da-inflacao-e-maior-risco-ao-brasil-com-guerra-no-ira-dizem-analistas.ghtml.
Acesso em: 16 mar. 2026.
2Op. cit. nota 1. As
expectativas atuais são de declínio nos embarques brasileiros para o Irã.
3INSTITUTO DE
ECONOMIA AGRÍCOLA. Fértil incerteza. São Paulo: IEA, 2026. Disponível
em: https://iea.agricultura.sp.gov.br/out/TerTexto.php?codTexto=16017. Acesso
em: 16 mar. 2026.
4SCABRASIL. Mercado
de fertilizantes inicia 2026 em alta com restrições na oferta global e
valorização dos fosfatados. [S. l.]: SCABrasil, 2026. Disponível em:
https://scabrasil.com.br/mercado-de-fertilizantes-inicia-2026-em-alta-com-restricoes-na-oferta-global-e-valorizacao-dos-fosfatados/.
Acesso em: 16 mar. 2026.
5ZAFALON, M.
Brasil importa menos fertilizantes do Oriente Médio. Folha de S. Paulo,
São Paulo, 2026. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vaivem/2026/03/brasil-importa-menos-fertilizantes-do-oriente-medio.shtml.
Acesso em: 16 mar. 2026.
6KUPFER, J. P.
Inflação é o maior risco para o Brasil, mas depende da duração da guerra. UOL
Economia, São Paulo, 6 mar. 2026. Disponível em:
https://economia.uol.com.br/colunas/jose-paulo-kupfer/2026/03/06/inflacao-e-o-maior-risco-para-o-brasil-mas-depende-da-duracao-da-guerra.htm.
Acesso em: 16 mar. 2026.
7INSTITUTO DE
ECONOMIA AGRÍCOLA. Balança comercial dos agronegócios paulista e brasileiro,
Ano de 2025. São Paulo: IEA, 2026. Disponível em:
https://iea.agricultura.sp.gov.br/out/TerTexto.php?codTexto=16318. Acesso em:
16 mar. 2026.
8Não é demais
lembrar que, entre os países mulçumanos (que formam a quase totalidade da
população), o consumo de carne suína é totalmente proibido.
Palavras-chave:
geopolítica e mercado de energia, repercussões do ataque ao Irã, agronegócio
brasileiro.
COMO CITAR ESTE ARTIGO
VEGRO,
C. L. R.; RAMOS, S. de F.; PINATTI, E. Repercussões do Ataque Americano/Israelense
ao Irã. Análises e Indicadores do Agronegócio, São Paulo, v. 21, n. 3,
mar. 2026, p. 1-5. Disponível em: colocar o link do artigo. Acesso em: dd mmm. aaaa.

