As
exportações brasileiras da cadeia de produção de têxteis e confecções alcançaram
US$1,656 bilhão em 2003, com acréscimo de 39,7% em comparação com as do ano
anterior. Em face do superávit de US$595 milhões, o mais elevado do decênio,
esse desempenho teve conotação especial, após as vultosas importações e
acentuados déficits no saldo comercial do setor, principalmente durante a
primeira metade dos anos 90s.
O algodão tem exercido forte influência sobre o comportamento da balança comercial têxtil, pois no período em que se registraram as mais elevadas importações da fibra, entre 1992 e 1997, o saldo comercial passou de um superávit de US$956 milhões para um déficit de US$1,1 bilhão. Nesse período, a mais modesta participação relativa da fibra de algodão no valor total importado foi da ordem de 24% em 1995, após ter alcançado 55% em 19931.
Ainda que a desvalorização cambial em 1999 tenha influenciado o declínio das
importações de produtos de toda a cadeia produtiva, a recente expansão da
produção brasileira de algodão, a conseqüente redução da dependência de
internalizações dessa fibra - principal matéria-prima da indústria têxtil - e a
retomada das exportações contribuíram para a recuperação do superávit do setor.
A produção brasileira de algodão em pluma, entre 1998 e 2003, passou de 411,0 mil para 847,5 mil toneladas, com acréscimo, portanto, de 106,2%, enquanto as importações foram reduzidas a um terço no período, conforme a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB)2.
Em recente estudo3 sobre o comércio exterior da
cadeia de têxteis e confecções, verificou-se que entre 1999 e 2001 as
exportações totais apresentaram crescimento de 13,7% ao ano, enquanto as
importações foram reduzidas a 7,6% a.a.. A mesma pesquisa revela que o algodão
foi o item que apresentou a mais elevada taxa de crescimento nas exportações, de
42,3% a.a., e o mais acentuado declínio nas importações, de 44,1% a.a..
A contribuição do algodão
Em 2003, as vendas externas de artigos têxteis e confeccionados de algodão, inclusive na forma de pluma, alcançaram US$1,033 bilhão, o equivalente a 62,3% do total exportado pela cadeia. Nas confecções, o item mais importante da pauta, os produtos dessa matéria-prima responderam por 76,5%; nos tecidos, por 78,1%; nas fibras, 63,4%; e no fios, por 61,1%. As menores contribuições do algodão foram em outras manufaturas, em torno de 9% (figura 1).
Figura 1 – Exportações da cadeia têxtil e confecção1 e de artigos de algodão, Brasil, 2003
(US$ milhão FOB)
1 As exportações totais
incluem filamentos artificiais e sintéticos, no valor de US$72,8 milhões.
Fonte: Elaborada a partir de dados de Secretaria de Comércio Exterior (SECEX)4, divulgados em Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT)5
No
primeiro quadrimestre de 2004, as exportações de têxteis e confecções somaram
US$580,2 milhões, com incremento de 22,1% em comparação com as do mesmo período
do ano passado. Em face das importações, de US$473,9 milhões, manteve-se,
portanto, o quadro superavitário no período.
Os artigos de algodão, de janeiro a abril deste ano, predominaram com 57,4% do
total exportado. Entre eles, destaca-se o crescimento de 70% nas exportações da
fibra de algodão. Nos segmentos dos tecidos e das confecções, as contribuições
dessa matéria-prima foram as mais elevadas, com o equivalente a 74,2% e 72,3%,
respectivamente (tabela 1).
TABELA 1 – Exportações da cadeia têxtil e confecção1, Brasil, Janeiro a Abril de 2003 e Janeiro a Abril
de 2004
(US$ milhão FOB)
| Item | | | | | |||
| Algodão (a) | Total (b) | Algodão (c) | Total (d) | Algodão (c/d) | | | |
| Fibras | 24,3 | 64,5 | 41,3 | 82,1 | 50,3 | 70,0 | 27,3 |
| Fios | 29,6 | 48,9 | 30,9 | 56,7 | 54,5 | 4,4 | 16,0 |
| Tecidos | 69,7 | 85,8 | 77,5 | 104,5 | 74,2 | 11,2 | 21,8 |
| Confecções | 157,6 | 197,1 | 175,0 | 242,2 | 72,3 | 11,0 | 22,9 |
| Outros | 6,2 | 55,4 | 8,2 | 71,2 | 11,5 | 32,3 | 28,5 |
| Total | 287,4 | 475,1 | 332,9 | 580,2 | 57,4 | 15,8 | 22,1 |
Fonte: Elaborada a partir de dados de Secretaria de Comércio Exterior (SECEX)4, divulgados em Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT)5
Considerações finais
Depois
de figurar como um dos principais itens da pauta de importações, o algodão
tem-se destacado tanto nas exportações como matéria-prima quanto em
manufaturados, especialmente nos de maior valor agregado.
O crescimento nas exportações da fibra de algodão reflete o retorno do Brasil ao papel de exportador, posto que para 2004 prevê-se que as exportações devam alcançar 440,0 mil toneladas2. Trata-se da maior
quantidade desde há pelo menos duas décadas, quando o país deixou de participar
como ofertante no mercado mundial. A produção recorde, prevista em 1,240 milhão
de toneladas em 2003/04, deverá contribuir para a consolidação dessa
expectativa.
Por outro lado, o consumo brasileiro de algodão não deverá crescer nas mesmas proporções, tendo em vista que as 826,0 mil toneladas (7% maior) configuram uma recuperação da demanda interna, uma vez que ainda deve ficar aquém do uso industrial verificado entre 2000 e 20012.
Nesse cenário, como a demanda interna por manufaturados têxteis está relacionada à dinâmica da economia, por ser condicionada pelo ritmo de crescimento do emprego e dos salários6, a maior utilização
industrial de algodão poderá ser revertida às exportações de manufaturados que
têm por base essa matéria-prima, em lugar da demanda doméstica por esses
produtos.

1 BARBOSA, M.Z.; NOGUEIRA JUNIOR, S; FREITAS, B.B. Comércio exterior brasileiro de têxteis e confecções: a contribuição da fibra de algodão. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ALGODÃO, 4, 2003, Goiânia, GO. Anais... Goiânia: EMBRAPA Algodão, 2003. [CD-ROM].
2 CONAB: www.conab.gov.br
3 PROCHNIK, V. A cadeia têxtil/confecções perante os desafios da ALCA e do acordo comercial com a União Européia. Economia, Niterói, RJ, v.4, n.1, p.53-83,
jan./jun. 2003.
4 SECEX/MDIC: www.mdic.gov.br
5 ABIT: www.abit.org.br
6 SOARES, P.M. Abertura comercial: setor têxtil por um fio – avaliação dos impactos do processo de abertura comercial sobre o setor têxtil e as estratégias de adaptação. Dissertação de Mestrado, FGV, SP, 1994.

