1 - ANTECEDENTES

Há motivações econômicas e políticas para que tarifas sejam impostas para parceiros comerciais no contexto das transações internacionais. A mais usual consiste na busca por revigorar segmentos da economia dependentes das importações (chamada de reindustrialização). Naqueles casos em que há déficit crônico do saldo das trocas com o exterior, pode-se implementar tarifas visando mitigá-lo. Tal arrecadação discricionária, ademais, repercute no esforço fiscal de recomposição das contas públicas. Entre os organismos colaterais (OMC e GATT), há explicita permissão para a imposição de tarifas mediante argumentos relativos à segurança nacional.

Do ponto de vista político, as tarifas expressam aparente guinada protecionista após décadas de globalização que, especialmente ao início da pandemia, exibiu imensa desconfiança (todos países em busca de utensílios que somente a China poderia fornecer). Ainda no campo político, os países penalizados pelas tarifas podem ameaçar com retaliações ou, efetivamente retaliar, trazendo mais perdas para o comércio internacional.

Os reflexos da tarifação de itens importados podem exibir diversas facetas. A mais evidente é o encarecimento dos itens importados oferecidos no mercado interno, podendo implicar em escalada de índices inflacionários. Essa pressão sobre os preços induz a constituição de modalidades de abastecimento trianguladas, em que o produto afetado é conduzido a outro mercado (país) para ser redirecionado ao que impôs tarifas. A substituição de produto e de origens pode tomar ensejo na estratégia de mitigar o impacto nas empresas e famílias. Todavia, dentre todas as consequências, a mais danosa, talvez, consiste na redução da expansão econômica prevista antes do “tarifaço”, decorrente da insegurança comercial e da desorganização das cadeias de suprimentos.

Estudo1 demostrou que a maior parte da arrecadação tributária advinda da majoração tarifária foi efetivamente paga por consumidores e empresas. Pequena parcela foi absorvida por importadores e exportadores, ou seja, famílias empobrecem e empresas perdem lucratividade. No balanço geral dos prós e contras, a conclusão do estudo indica que o “custo econômico supera a arrecadação total”.

Face a essas questões de cunho conceitual, porém, já exibindo expressões empíricas tanto na economia do país discricionário como dentre os afligidos, pretende-se mensurar em quantidade e valores os impactos das exportações e importações brasileiras e paulistas para os EUA, segmentando entre total geral (inclusive agro) e exclusivamente relativas aos gêneros do agronegócio.

 

2 – TRANSAÇÕES COMERCIAIS BR X EUA ENTRE 2024 E 2025

É longeva a realização de trocas comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos, denotando estágio de maturidade dessa relação. O relativo equilíbrio entre exportações e importações para ambos mercados prevaleceu no período recente, contrabalançando o histórico de consecutivos déficits do Brasil nas transações com os EUA.

 

2.1 – Corrente de Comércio Geral BR x EUA

A histórica parceria comercial do Brasil com os EUA confere as trocas comerciais entre ambos os países ampla diversidade de itens transacionados. Considerando o movimento global do comércio, até 20242, havia relativo equilíbrio da corrente de comércio com ligeiro déficit para o Brasil de US$ 284 milhões (obtido pelo resultado da diferença US$40.652 - US$40.369) que, todavia, salta para US$7,53 bilhões, ou seja, expansão de 2.553% no período (Tabela 1).

 

 

Houve queda no montante apurado com os embarques para os EUA de US$2,65 bilhões, enquanto, no movimento contrário, as importações brasileiras oriundas dos americanos foram de US$4,59 bilhões, totalizando os US$7,53 mencionados de vantagem econômica para os estadunidenses. Tais variações são bastante decorrentes da aplicação tanto da tarifa linear recíproca (10%) como de seu adicional tarifário (ordem executiva 30/07/2025), elevando-as ao patamar de 50%.

Em 2024, cada tonelada exportada pelo Brasil arrecadava US$993,89, enquanto nas importações essa mesma quantidade custava US$1.257,48, ou seja, em média os produtos importados dos EUA pelo Brasil possuíam maior valor agregado do que a média dos itens enviados aos EUA. Em 2025, ligeira piora no valor médios das exportações brasileiras alcançando US$979,96/t embarcada (as expensas do salto nas cotações do suco de laranja e do café), enquanto nas compras brasileiras o valor médio se manteve relativamente estável ao contabilizar US$1.256,45/t. Tais resultado denotam a predominância dos produtos básicos (commodities, minerais e petróleo) na composição de nossas exportações para o mercado estadunidense

Sob a vigência das tarifas (começando em abril/2025 com 10% e depois acrescida de outros 40% em ago./2025 - essa última eliminada em 13/11/25), há uma queda nas quantidades exportadas e importadas pelo Brasil. Evidentemente, o efeito das tarifas freou os embarques para os EUA, potencializando o declínio das quantidades brasileiras embarcadas.

As importações em 2025 foram beneficiadas por desvalorização do dólar ao longo do ano que acumulou nos 12 meses cerca de 10% de queda em sua cotação frente a uma cesta de moedas.

 

2.2 – Corrente de Comércio do Agronegócio BR x EUA

As exportações do setor agropecuário brasileiro para os EUA somaram US$12,08 bilhões em 2024. Tal resultado exibe declínio de 5,61%, contabilizando, em 2025, US$11,40 bilhões. Com importações dos EUA girando em torno de US$1,0 bilhão, a corrente de comércio entre os dois países oscilou entre US$13,11 bilhões a US$12,46 bilhões em 2024 e 2025, respectivamente.

A incidência tarifária ainda que vigente por poucas semanas promoveu acentuada queda das exportações brasileiras para os EUA. Comparando-se o desempenho de 2024 com o resultado consolidado para 2025, contabilizou-se perda de valor e de quantidades.

Há vantagem econômica entre valor médio dos itens embarcados para os estadunidenses frente aqueles importados pelo Brasil. Enquanto cada tonelada exportada de gêneros do agronegócio brasileiro variou entre US$1.286,47/t e US$1.373,49/t, para 2024 e 2025, respectivamente, no sentido inverso os valores médios foram de US$1.430,55/t e para US$2.163,26/t para os mesmos anos.

 

3 – TRANSAÇÕES COMERCIAIS SP X EUA ENTRE 2024 E 2025   

O estado de São Paulo possui bem estabelecida relação comercial com o mercado estadunidense; não há apenas a presença de companhias daquele país em território paulista como, ainda, a importância do suco de laranja e aeronaves na pauta comercial brasileira para os EUA. Tal relevância pode ser exemplificada pelo patamar da corrente de comércio geral e do agronegócio entre ambos os países.

 

3.1 – Corrente de Comércio: Geral SP x EUA

Em 2024, o Estado de São Paulo respondeu por 33,62% das exportações totais do Brasil para os EUA, evoluindo para 35,21% em 2025, ou seja, incremento de 1,50 ponto percentual. Esse avanço ocorre mesmo sob o ligeiro declínio dos embarques de produtos paulistas, entre 2024 e 2025, de 2,2%. (Tabela 3).

 

 

 

Apesar dessa ligeira queda nas vendas externas paulistas aos EUA, houve acentuado crescimento das importações (10,2%), com incremento de US$1,31 bilhão no período considerado (de US$12,80 bilhões para US$14,11 bilhões).

No quesito valor médio da tonelada de mercadoria transacionada entre os mercados, em 2024, foram contabilizados US$2.141,03/t e US$3.339,60/t para exportações e importações, respectivamente. No ano seguinte, esses valores saltam para US$2.384,45/t e US$3,731,36/t para exportações e importações, respectivamente. Assim, o valor médio da tonelada na corrente de comércio paulista com os estadunidenses é bastante superior ao brasileiro, tanto nas vendas como nas compras internacionais, refletindo maior valor agregado dos bens transacionados3.

 

3.2 – Corrente de Comércio: Agronegócio SP x EUA

Tomando como referência os valores apurados, no período considerado, há ligeiro avanço nas exportações paulistas para os EUA (0,6% - US$19,90 milhões), porém, a expansão percentual das importações é bastante significativa (14,4%), com incremento de US$58,9 milhões (Tabela 4).

 

 

O valor médio da tonelada exportada pelo agronegócio paulista, em 2024, foi de US$1.242,15, muito alinhado com o valor da tonelada exportada pelo Brasil. Porém, nas importações, essa média salta para US$2.357,22/t, denotando o interesse paulista por produtos estadunidenses de maior valor agregado. Em 2025, esses mesmos indicadores passam para US$1.476,92/t e US$2.321,89/t. Ou seja, há incremento do valor médio da tonelada das exportações paulistas, enquanto nas importações se constatou estabilidade3.

 

 

3.2.1 – Ranking dos principais produtos do agronegócio paulista exportados para os EUA

Entre os dez produtos mais destacados da pauta do agro paulista embarcados para os EUA, os sucos de laranjas constituem o principal pilar de sustentação. Entre 2024 e 2025, houve inclusive expressivo aumento das vendas externas para esse mercado. No último ano, os sucos perfizeram 40,6% do total das exportações do agro para os estadunidenses, refletindo a drástica queda de sua produção. Na sequência ocuparam as segunda e terceira posições a carne bovina (14,3%) e café verde e torrado (5,8%), respectivamente (Figura 1).

 

A antecipação de importações das carnes e do café antes do começo da vigência do tarifaço permitiu que ambos os produtos apurassem resultados cambiais superiores aos contabilizados em 2024. No caso do café verde e torrado, houve crescimento de 14,7%, representando incremento de US$26 milhões, apesar do registro de queda da quantidade embarcada. Esse resultado para as carnes, embora positivo, foi mais modesto, com aumento de 5,1% (incremento de US$24 milhões).         

O efeito danoso às relações comerciais decorrentes do tarifaço pode ser apreciado nos embarques do subproduto da agroindústria extratora de sucos que são os óleos essenciais. Em 2024, as vendas alcançaram US$241 milhões, recuando para US$99 milhões em 2025 (queda de 58,9%). Diferentemente do suco, os óleos essenciais de laranja e demais óleos não escaparam do tarifaço e, por essa razão, houve a queda tão expressiva no resultado cambial contabilizado em 2025.

Ao final de novembro de 2025, após amplas tratativas diplomáticas com apoio do primeiro escalão do executivo brasileiro, o adicional de 40% sobre a tarifa de 10% foi revogado. Inúmeros negócios entre as partes, especialmente as originações brasileiras, aguardavam uma sinalização para conclusão das transações. Efetivamente, foi expressiva a variação positiva dos embarques brasileiro e paulista para os EUA, tanto dos gêneros do agronegócio como o total do conjunto dos segmentos econômicos, oscilando em salto superiores a 30% com mais de 55% para as exportações do agro paulista (Tabela 5).

 

Segundo a Câmara de Comércio Americana no Brasil, em dezembro de 2025, houve incremento das exportações brasileiras para outros destinos de nove dos dez produtos com maiores quedas nas vendas para o mercado estadunidense, destacando-se o café não torrado, com expansão de 82,1% em valor. O mesmo padrão foi constatado para as exportações ao longo de 2025, com nove dentre dez produtos com perdas para embarques aos EUA e performando positivamente para outros destinos, excetuando-se o óleo bruto4.

 

4 - CENÁRIO PROSPECTIVO

Considerando os resultados obtidos em 2025 nas exportações brasileiras para os EUA, o comércio exterior brasileiro conta com 36% de sua pauta isenta de tarifas para ingresso no mercado estadunidense (aproximadamente US$14,3 bilhões). Outros 15% são taxados em 10%, representando negócios da ordem de US$6,2 bilhões. Dentre os produtos do agronegócio submetidos ao tarifaço, encontram-se: café solúvel, pescados, cereais, mel e tabaco. Finalmente, há ainda produtos submetidos à lei de segurança nacional que impõe taxas diferenciadas para 27% da pauta brasileira embarcada para os EUA, o que representa US$10,9 bilhões5.

Persiste ainda pico tarifário de 50% sobre, aproximadamente, 22% dos itens que compõem nossa pauta exportadora (cerca de US$8,9 bilhões). O recente anúncio do governo estadunidense de que o alumínio e outros metais teriam suas alíquotas tarifárias reduzidas pode significar representar uma parcela adicional de destravamento das exportações brasileiras.

O emprego de tarifas para promover a produção local implementado pelo governo estadunidense reproduz, em certa medida, o experimento cepalino adotado pelo Brasil a partir dos anos 1960 e que perdurou até final dos 1980 (substituição de importações). Contudo, ao contrário das promessas aventadas à época, o que se concretizou foi um desmedido entesouramento dos bem de vida (barões da indústria), baixa produtividade setorial (não houve modernização do parque produtivo) e preços comparativamente mais elevados para a população ativa no mercado interno. A brasilização dos EUA já é uma tendência.

Ainda que os rumos da economia imponham limites para o experimento econômico estadunidense, houve êxitos plausíveis dessa empreita6. Frente ao Brasil, de um saldo de balança comercial equilibrada em 2024 (pequeno déficit brasileiro nas transações), o ano de 2025 encerrou com saldo de mais de US$7 bilhões favoráveis ao país do hemisfério norte. Negociações sobre o ingresso de companhias americanas para exploração e processamento de minerais críticos também foram destravadas.

Em 20/02/2026, por votação majoritária da Suprema Corte Estadunidense, deliberou-se pelo cancelamento da política de emergência econômica que deu ensejo para a aplicação discricionária de tarifas sobre parceiros comerciais. Tal decisão impõe derrota ao mandatário daquele país e promete trazer novo equilíbrio para o comércio internacional entre os EUA e o resto do mundo. Provavelmente, essa análise não se encerrará aqui.




1DANTAS, F. Consumidor americano paga a conta do tarifaço de Trump. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 2025. Disponível em: https://www.estadao.com.br/economia/fernando-dantas/consumidor-americano-paga-a-conta-do-tarifaco-de-trump/. Acesso em: 16 fev. 2026.

 

2Até 2024, há déficit maior para o Brasil; nos últimos 5 anos o déficit é de US$30,89 bilhões, e nos 10 anos é de US$48 bilhões. Os autores agradecem aos pesquisadores Carlos Nabil Grobil (Apta/IEA) e Marli Dias Mascarenhas Oliveira (pesquisadora associada), membros da equipe responsável pelas análises relativas à balança comercial do estado de São Paulo.

 

3A pauta de importações paulistas provenientes dos EUA é majoritariamente composta por medicamentos e produtos farmacêuticos.

 

4AMCHAM BRASIL. Monitor do Comércio Brasil–EUA: janeiro–dezembro de 2025. São Paulo: Câmara Americana de Comércio para o Brasil, 2026. Disponível em: https://www.amcham.com.br. Acesso em: 16 fev. 2026.

 

5BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Nota do MDIC sobre a ordem executiva dos Estados Unidos publicada em 20 de novembro de 2025. Brasília: MDIC, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/noticias/2025/novembro/nota-do-mdic-sobre-a-ordem-executiva-dos-estados-unidos-publicada-no-dia-20-de-novembro-de-2025. Acesso em: 16 fev. 2026

6Como foi o caso da União Europeia, que aceitou tarifa de 15% sobre seus artigos exportados para os EUA sem qualquer contrapartida.

Palavras-chave: comércio internacional, tarifas aduaneiras, corrente de comércio.


 


COMO CITAR ESTE ARTIGO

VEGRO, C. L. R.; ANGELO, J. A. Comparativo entre a Corrente de Comércio Brasil x EUA e São Paulo x EUA sob a Égide do “Tarifaço”. Análises e Indicadores do Agronegócio, São Paulo, v. 21, n. 3, mar. 2026, p. 1-9. Disponível em: colocar o link do artigo. Acesso em: dd mmm. aaaa.