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Uma Canetada no Mercado de Alimentos
A elevação nos preços dos alimentos, rotineiramente,
tem liderado a inflação na economia brasileira. Tomando o caso da cidade de São
Paulo, por exemplo, a variação da cesta de mercado contabilizada pelo Instituto
de Economia Agrícola (IEA), entre março de 2011 a junho de 20251,
somou 50,78%, frente ao IPCA amplo de 30,07% para o mesmo período. Pressões sobre a oferta de alimentos, exercidas por
fatores bióticos (pragas e doenças) e abióticos (especialmente as mudanças
climáticas em curso), têm produzido elevação dos preços, assim como a
diminuição da taxa de desemprego e evolução favorável da renda das famílias
(subindo acima da inflação)2, e produzem alavancagem da taxa de
inflação setorial (mercado de alimentos). O desmantelamento das políticas públicas orientadas
para o abastecimento alimentar, ocorrido entre 2015 e 2022 (sequência de
governos de matriz neoconservadora), causou ainda maior dificuldade de exercer
qualquer gestão sobre a inflação de alimentos. Justamente nesse período o
Brasil retorna ao Mapa da Fome3, com parcela significativa de sua
população em situação de insegurança alimentar sob diferentes níveis de
gravidade: leve, moderada e grave. Entretanto, o preço dos alimentos, atualmente, exibe
momento distinto daquele observado no passado, quando as cotações seguiam, mês
a mês, pressionadas. Surge um fator disruptor no âmbito do mercado de
alimentos, constituído pelos medicamentos supressores de apetite4.
Para além da balança, há o efeito do emprego das popularmente chamadas “canetas
emagrecedoras” sobre o preço dos alimentos. Em 2025, as despesas cambiais com a importação dos
moderadores de apetite totalizaram US$1,69 bilhão (aproximadamente R$8,5
bilhões ao câmbio de R$5,05/US$), representando salto de 88% frente ao ano
anterior5. Esse montante, caso somado às estimativas tanto de
contrabando como de descaminho, pode acrescentar outros R$4,6 bilhões à demanda
pelos fármacos6. Diante da magnitude desses números, o reflexo
imediato consiste em amplo alcance obtido dessa terapia pela população
brasileira, especialmente naquelas capitais de maior renda per capita,
uma vez que as canetas são comercializadas a preços ainda elevados. Reiley7 noticiou resultado de estudo
estadunidense que constatou, após seis meses que com a utilização dos
medicamentos moderadores de apetite, as famílias reduziram seu gasto nos
supermercados em 5,3% em média. Nas famílias de mais elevada renda, essa
redução alcança até 8,0%. Esse mesmo percentual foi obtido para os gastos com
alimentação fora do lar, incluindo as cafeterias e fast-food. Os autores
concluem então que “compreender essas mudanças na demanda é, portanto,
importante para avaliar os mercados de alimentos e os gastos do consumidor”. A mesma pesquisa indicou que os alimentos que
sofreram maiores reduções no consumo das famílias foram os ultraprocessados. Em
contrapartida, houve gêneros que registraram elevação na demanda como iogurtes,
frutas frescas e barras de proteína. Outros itens básicos, como pães, carnes e
ovos, também exibiram queda na demanda por parte das famílias em que há uso dos
medicamentos moderadores de apetite em pelo menos um de seus membros. Os autores da pesquisa ressaltam que a adoção
generalizada dos moderadores de apetite implicará em mudanças na indústria de
alimentos, nos restaurantes e nos varejistas. Ademais, entendem que as
embalagens também passarão por ajustes, assim como a formulação dos produtos. Diante das repercussões do uso dos moderadores de
apetite, a indústria de alimentos se reinventa. Ultraprocessados com maiores
teores proteico, vitamínico e de fibras, chamados de amigáveis para os GLP-1 (hormônio natural produzido pelo
intestino após a ingestão de alimentos),
passam a compor a segmentação dos produtos oferecidos8, 9. No Brasil, convive-se com o paradoxo: enquanto são
desenhadas políticas para enfrentar a prevalência da fome e desnutrição de
parcela de sua população, assiste-se, paralelamente, a crescente expansão da
obesidade10. Reflexo dessa situação: houve uma corrida aos
moderadores de apetite, como evidenciam os gastos cambiais com a importação
desses medicamentos. Pesquisa conduzida por empresa de monitoramento do
varejo concluiu que 2,4% dos domicílios brasileiros declararam que ao menos um
de seus membros é usuário das canetas. Quando se consideram as classes A e B, a
penetração chega a 4,3%11. A capacidade dos medicamentos GLP-1 em promover o
emagrecimento, consiste em produzir uma espécie de aversão ao consumo de alimentos.
Segundo Tonon, essa característica faz com que os consumidores cheguem a se
esquecer de comer12. O setor gastronômico constatou a necessidade de
promover atualizações nos cardápios dos restaurantes, para fazer frente a esse
novo comportamento. Menus menores, com predominância de proteínas, grãos
integrais e fibras, destinados aos usuários dos moderadores de apetite,
introduzem a categoria “GLP-1 friendly”. Os moderadores de apetite são comercializados a
preços inacessíveis à considerável faixa da população. Todavia, com a queda das
patentes e o início da produção local desses fármacos, haverá maior acesso da
população aos medicamentos, incrementando-
-se substancialmente o número de usuários. O mercado de alimentos e as
empresas nele atuantes, ainda que redesenhem suas linhas de segmentação de
produtos, será impactado devido a menor ida aos supermercados para a aquisição
de gêneros alimentícios. As proteínas (carnes, ovos, lácteos), frutas frescas
e grãos integrais tendem a ser beneficiados pelo aumento da preferência do
conjunto de usuários das canetas emagrecedoras. Alimentos comercializados em
embalagens terão ofertas menores, trazendo inclusive para esse grupo
beneficiado sobre a demanda total. Análise quantitativa junto a 2 mil adultos, conduzida pela
empresa de inteligência de mercado Scanntech em 2026, apontou que no varejo de
alimentos espera-se uma redução de 0,49% no volume total comercializado, como
as bebidas açucaradas e cervejas, as com maior redução (próximas de 1,0%),
enquanto a mercearia básica teria uma queda estimada de 0,43%. No mesmo estudo,
os alimentos com previsão de expansão da demanda foram os produtos frescos,
suplementos proteicos, água e vitaminas13. O mercado de
alimentos será impactado como progressivo incremento no número de usuários das
canetas emagrecedoras. A diminuição da ida aos supermercados comprometerá o
desempenho desses equipamentos comerciais, com prováveis efeitos na formação
dos preços dos alimentos, sobretudo os mais impactados pela mudança de hábito
propiciada pelo uso dos moderadores de apetite. 1INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA. Portal do
Varejo. São Paulo: IEA, [2026?]. Disponível em:
https://iea.agricultura.sp.gov.br/out/varejo.php. Acesso em: 20 ago. 2026. 2O rendimento médio, em 2025, alcançou R$3.367,00,
representando crescimento de 5,4% frente a 2024 já descontada a inflação do
período. CAMPITELI, D. Rendimento médio do brasileiro bate recorde e chega a R$
3.367. Poder360, São Paulo, 8 maio 2026. Disponível em:
https://www.poder360.com.br/poder-economia/rendimento-medio-do-brasileiro-bate-recorde-e-chega-a-r-3-367/.
Acesso em: 20 ago. 2026. 3G1. Brasil volta ao Mapa da Fome das
Nações Unidas. Jornal Nacional, 6 jul. 2022. Disponível em:
https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2022/07/06/brasil-volta-ao-mapa-da-fome-das-nacoes-unidas.ghtml.
Acesso em: 20 ago. 2026. 4Os medicamente
simulam a ação do hormônio GLP-1, promovendo a saciedade e retardando o
esvaziamento gástrico “não fazem apenas com que o usuário sinta menos fome e
perca uma significativa de peso corporal. Eles alteram a relação da nossa
sociedade com o alimento”. TONON, R. Tchau, prazer: “canetas emagrecedoras”
devem mudar como enxergamos a comida. UOL, 23 jul. 2026. Disponível em:
https://www.uol.com.br/nossa/colunas/rafael-tonon/2026/07/23/como-os-glp-1-estao-mudando-como-gostamos-e-nos-relacionamos-com-a-comida.htm.
Acesso em: 20 ago. 2026. 5NAKAGAWA, F.
Demanda explode e Brasil já importa mais caneta emagrecedora que celular. CNN
Brasil, 12 jan. 2026. Disponível em:
https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/fernando-nakagawa/economia/money/macroeconomia/demanda-explode-e-brasil-ja-importa-mais-caneta-emagrecedora-que-celular/.
Acesso em: 20 ago. 2026. 6CONSELHO FEDERAL
DE FARMÁCIA. Mercado ilegal de canetas emagrecedoras movimenta bilhões e
acende alerta no Brasil. Brasília, DF: CFF, 2026. Disponível em:
https://site.cff.org.br/noticia/Noticias-gerais/28/05/2026/mercado-ilegal-de-canetas-emagrecedoras-movimenta-bilhoes-e-acende-alerta-no-brasil.
Acesso em: 20 ago. 2026. 7REILEY, L. Ozempic is changing the foods Americans
buy. Cornell
Chronicle,
Ithaca, 19 Dec. 2025. Disponível em:
https://news.cornell.edu/stories/2025/12/ozempic-changing-foods-americans-buy.
Acesso em: 20 ago. 2026. 8A Nestlé lançou a
linha Vital Pursuit.
Um dos produtos incluídos nessa marca é uma pizza de couve-flor que contém 32%
da quantidade recomendada de proteína. Curiosamente, segundo a companhia houve
maior aceitação do produto entre não usuários das canetas. CASTRO, B. A teoria
dizia que o Ozempic acabaria com os alimentos ultraprocessados, mas a realidade
é que ele os reinventou. Xataka Brasil, 21 jul. 2026. Disponível em:
https://www.xataka.com.br/ciencia/a-teoria-dizia-que-ozempic-acabaria-com-os-alimentos-ultraprocessados-a-realidade-e-que-ele-os-reinventou.
Acesso em: 20 ago. 2026. 9No Brasil a Cooperativa Frimesa lançará, em
2027, barra de proteína elaborada com pernil suíno a ser disponibilizada nas
academias e lojas de conveniência. COUTO, C. Frimesa eleva aposta em
‘processado inovador’: cooperativa dobrará investimentos e ampliará portfólio
de itens derivados de carne suína. Globo Rural, 7 ago. 2026. Disponível em:
https://globorural.globo.com/cooperativas/noticia/2026/08/frimesa-eleva-aposta-em-processado-inovador.ghtml.
Acesso em: 20 ago. 2026.
10SILVA, J. G.; MARTINS, J. O avanço da obesidade
nas Amazônias. Valor Econômico, 6 jul. 2026. Disponível em:
https://valor.globo.com/opiniao/coluna/o-avanco-da-obesidade-nas-amazonias.ghtml.
Acesso em: 20 ago. 2026. 11KINA, L. GLP-1 avança no radar dos brasileiros
e pode impactar o varejo. E-Commerce Brasil, 22 jun. 2026. Disponível
em:
https://www.ecommercebrasil.com.br/noticias/glp-1-avanca-no-radar-dos-brasileiros-e-pode-impactar-o-varejo.
Acesso em: 20 ago. 2026. 12TONON, R. Tchau,
prazer: “canetas emagrecedoras” devem mudar como enxergamos a comida. UOL,
23 jul. 2026. Disponível em:
https://www.uol.com.br/nossa/colunas/rafael-tonon/2026/07/23/como-os-glp-1-estao-mudando-como-gostamos-e-nos-relacionamos-com-a-comida.htm.
Acesso em: 20 ago. 2026.
13Canetas emagrecedoras crescem 239% no Brasil e
já transformam o carrinho do consumidor. Super Varejo. REDAÇÃO. Canetas
emagrecedoras crescem 239% no Brasil e já transformam o carrinho do consumidor.
SuperVarejo, 25 jun. 2026. Disponível em:
https://www.supervarejo.com.br/varejo/canetas-emagrecedoras-crescem-239-no-brasil-e-ja-transformam-o-carrinho-do-consumidor.
Acesso em: 20 ago. 2026. Palavras-chave:
mercado de alimentos, preços de alimentos, canetas emagrecedoras. Liberado para publicação em: 19/08/2026 COMO CITAR ESTE ARTIGO VEGRO, C. L. R. Uma Canetada no Mercado de Alimentos.
Análises e Indicadores do Agronegócio, São Paulo, v. 21, n. 8, p. 1-5, ago.
2026. Disponível em: colocar o link do artigo. Acesso em: dd mmm. aaaa.
Data de Publicação: 20/08/2026
Autor(es): Celso Luís Rodrigues Vegro (celvegro@sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor

